Na Terceira Avaliação Mundial dos Oceanos, as Nações Unidas apresentam um diagnóstico amplo e urgente sobre o tema.
Na resposta ao desafio global nos mares, vários países de língua portuguesa encaram obstáculos, mas têm potencialidades para liderar temas como a preservação marinha e a nova economia azul. A análise é da perita portuguesa Maria João Bebianno.
Motor científico
Para explicar o panorama apresentado na Terceira Avaliação Mundial sobre os Oceanos, a ONU News conversou com acadêmica portuguesa da Universidade do Algarve, UAlgarve, que é um dos 25 peritos mundiais responsáveis pela redação do relatório.
Maria João Bebianno mencionou exemplos de contextos como o Brasil, que ao lado de Portugal é um dos motores científicos desta questão.
“É necessário, no fundo, divulgar mais este relatório para os países de língua portuguesa. Do conhecimento que eu tenho, Cabo Verde tem utilizado bastante o segundo relatório e, portanto, espera-se que o terceiro também tenha o mesmo acolhimento. Nos outros países, no Brasil é muito ativo. Inclusivamente há um colega brasileiro no grupo de peritos, nos tais 25 peritos mundiais do qual eu faço parte, também existe um colega brasileiro.”
Expandindo o olhar para além do contexto do Oceano Atlântico, a exploração sustentável dos mares apresenta oportunidades transformadoras para nações como Moçambique.
A especialista entende que o papel da capacitação é decisivo, funcionando como o motor que impulsiona a transição de um potencial inexplorado para um modelo dominado pela economia azul: próspero e ambientalmente responsável.
Vista aérea da biodiversidade de Palau, ameaçada pela elevação do nível do mar.
“Tenho encontrado em workshops, que normalmente se organizam para dar suporte ao relatório, para discutir em várias regiões do mundo, quais são as preocupações dos diferentes países, já tive a oportunidade de me encontrar com alguns colegas de Moçambique, mas eu acho que é preciso uma maior dinamização porque é preciso mais informação também das zonas costeiras desses países e, no fundo, uma maior cooperação na formação nesta área.”
A humanidade está a empurrar os oceanos para além dos seus limites, segundo alertou o secretário-geral da ONU. António Guterres citou a “crise tripla” das alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição, ao relembrar que os mares moldam o clima, sustentam economias e alimentam bilhões de pessoas.
Bebianno, conhecida por uma carreira que remonta à negociação da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, em 1981, e como pioneira em Ecotoxicologia Marinha em Portugal, desvenda a ciência por trás do relatório e o papel crucial da Lusofonia na empreitada ambiental.
Vantagem estratégica e desafios do eixo lusófono
Para ela, o relatório enquadra países de língua oficial portuguesa que, em conjunto, possuem algumas das mais vastas e ricas Zonas Econômicas Exclusivas, ZEE, do planeta.
Segundo Bebianno, a produção de análises detalhadas como esta avaliação mundial serve como um apelo direto à cooperação multilateral e à capacitação técnica, áreas onde o mundo lusófono pode e deve beneficiar de forma estratégica.
Uma das grandes inovações da terceira edição é a adoção do conceito da ONU “Uma Só Saúde”, ou One Health. A abordagem defende que a saúde ambiental do mar está intimamente ligada ao bem-estar e à sobrevivência da humanidade.
Plástico em praia na cidade de Ubatuba, SP, Brasil.
Bebianno alerta para perigos escapando à visão comum. Apesar de o foco recair frequentemente sobre o lixo plástico, a cientista revela a urgência de combater os “poluentes emergentes”, com efeitos severos nos sistemas biológicos marinhos.
Aumento da temperatura do mar
Além disso, o relatório documenta os fenômenos físicos invisíveis, mas arrasadores do aumento da temperatura do mar provoca a expansão térmica das águas, elevando o nível médio do mar, da acidificação e perda de oxigênio nas águas.
Ao fundir pela primeira vez, as vertentes econômica, ambiental e social para medir o impacto humano, a especialista ressalta que a segurança alimentar global está em jogo.
A alteração de temperatura e correntes forçam a migração de inúmeras espécies, afeta a pesca e a aquicultura, mas há esperança com políticas de gestão rígidas que provaram ser eficazes, com espécies como o atum a darem sinais de recuperação.
Para a especialista, com a transição em curso no campo da energia e lazer, o relatório aponta para um crescimento robusto das energias renováveis offshore. Em paralelo, o turismo, peça-chave para as economias globais e para a lusofonia, exige regras de sustentabilidade urgentes e estritas.
Exploração de combustíveis fósseis ainda avança
A investigadora defende ainda que a ciência conta agora com novos aliados para desvendar os mistérios das áreas ultra profundas, onde a exploração de combustíveis fósseis ainda avança.
O avanço tecnológico tem sido um forte aliado: o uso de modelos matemáticos complexos, sensores avançados, boias derivantes e drones marinhos tem permitido explicar fenômenos antes incompreensíveis.
Ilha de Moçambique, designada Patrimônio da Humanidade em 1991.
Bebianno diz que a arquitetura legal para salvar os oceanos ganhou, recentemente, uma robustez sem precedentes. Ela celebra a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, ou Acordo Bbnj, um marco que regula a biodiversidade marinha para lá das jurisdições nacionais.
Para ela, o novo panorama de governança reforça a meta de transformar 30% dos oceanos em Áreas Marinhas Protegidas até 2030. Para os países de língua portuguesa, e suas gigantescas ZEEs, esta não é apenas uma obrigação moral, mas uma oportunidade econômica ímpar.
Maria João Bebianno crê que atingir esta meta permitirá criar santuários ecológicos robustos, proteger o futuro da pesca sustentável, blindar as zonas costeiras e garantir que o turismo marinho perdure para as próximas gerações.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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