Enquanto o mundo se prepara para a grande final da Copa do Mundo de Futebol, disputada por Argentina e Espanha, a ONU realiza um evento que ressalta como esses grandes eventos esportivos podem deixar um legado social. 

O encontro, liderado pelo Escritório da Juventude das Nações Unidas, pretende usar a visibilidade do futebol para reforçar a importância da saúde mental, especialmente entre os jovens.

© Unsplash/Milio Garcia
A Copa do Mundo de futebol está em andamento no Canadá, México e Estados Unidos

A maior Copa do Mundo da história

O presidente de uma das organizações parceiras na realização do evento, a Fifa Master Alumni, Pedro Trengrouse, conversou com a ONU News sobre o que se espera alcançar.

“Vai ser uma discussão muito importante sobre como é que o esporte, no caso, o futebol, no meio de uma Copa do Mundo, a maior Copa do Mundo da história, com maior número de países participando, com o maior número de torcedores nos estádios, pode assumir um papel na promoção da saúde mental de todos, dos atletas, dos treinadores, dos torcedores, da sociedade como um todo. Todo mundo que pratica o esporte, que é o mais popular do mundo. Então, esse evento chama a sociedade a refletir no papel que o esporte pode ter na construção de um mundo melhor e, no caso específico, na promoção da saúde mental”.

O evento, chamado “Um mundo, um jogo, um objetivo”, reúne na sede da ONU, em Nova Iorque, atletas renomados como o ex-jogador Gilberto Silva, pentacampeão mundial pela seleção brasileira, além de jovens, governos, empresas e lideranças de vários setores. As atividades abrangem desde debates na Assembleia Geral até oficinas de futebol nos gramados da ONU.

Exposição de atletas nas redes sociais

Trengrouse enfatizou que, em meio à comoção gerada pela Copa do Mundo de Futebol, é importante lembrar que os jogadores estão sob constante pressão e enfrentam situações nocivas ao bem-estar psicológico.

“Os atletas hoje estão cada vez mais expostos a uma crítica muito pouco construtiva nas redes sociais e isso afeta a saúde mental deles. Teve um técnico lá no Rio de Janeiro, o Renato Gaúcho, que saiu do Fluminense por críticas que vinha recebendo nas redes sociais e disse isso na coletiva de imprensa. Então, nesse mundo cada vez mais conectado, onde muita gente se sente abandonada, dividida, com conflitos. No mundo que a gente está vivendo hoje, tão polarizado, as redes sociais acabam sendo ferramenta para comentários que não constroem, que não ajudam e que muitas vezes são injustos e até desnecessários. Nesse ponto, o atleta está muito exposto”.

O presidente da Fifa Master Alumni lembrou que em diversas modalidades esportivas já houve casos em que atletas de elite tiveram crise de burnout e pararam de competir por algum tempo para se recompor.

Segundo ele, “isso chama a atenção para o que a população em geral também sofre”.

Esportes coletivos reduzem ansiedade e depressão

Em fevereiro, um  relatório da ONU constatou que uma em cada sete pessoas entre 10 e 19 anos tem algum problema de saúde mental. Além disso, a depressão entre adolescentes e jovens adultos aumentou nos últimos anos.

O mesmo relatório constatou que a prática de esportes coletivos está associada a menores taxas de depressão e ansiedade, independentemente do país, mas que muitos jovens enfrentam barreiras para uma participação significativa no esporte.

Pedro Trengrouse destacou a capacidade do futebol de construir comunidades, pertencimento e um desejo de superar os próprios limites, todos eles elementos importantes para a saúde mental.

Street Child United/Arquivo
A organização Street Child United criou a Copa do Mundo das Crianças de Rua

Copa do Mundo Feminina de Futebol no Brasil

Ele defende que grandes eventos esportivos sejam cada vez mais usados para tratar temas que possam melhorar a vida das pessoas, citando a oportunidade que está nas mãos do Brasil, país sede da próxima Copa do Mundo Feminina de Futebol.

“A gente tem que encontrar a maior quantidade de causas e de propósitos positivos que o esporte possa promover. Hoje é a saúde mental, amanhã na Copa do Mundo Feminina no Brasil, por exemplo, precisa ser a questão de gênero. Um país como o nosso, que tem o índice de feminicídio que nós temos, não pode receber a Copa do Mundo Feminina sem tratar dessa questão, principalmente considerando que está tudo pronto para receber a Copa. Os estádios estão prontos. Nós construímos em 2014. Os aeroportos estão prontos. Os hotéis estão prontos. O Brasil hoje não tem que construir nada em infraestrutura para receber a Copa em 2027. Diferente de 2014, quando tinha que se construir tudo, Brasil não tinha estádio, não tinha aeroporto e precisava construir. Naquela época, o foco era a infraestrutura. Agora, o foco é a cidadania”.

O especialista destacou o papel da ONU na promoção do desenvolvimento humano através do esporte, fazendo um apelo para que o tema seja cada vez mais abraçado pelas diversas agências da organização.  

Link entre esporte e multilateralismo

Para ele, existe uma conexão a ser explorada entre esporte e multilateralismo. 

“A convenção que foi assinada mais rápido na história das Nações Unidas foi a Convenção Mundial Antidoping. Por quê? Porque foi feita em conjunto com as organizações esportivas. E os países que não assinassem não poderiam mais competir nessas competições organizadas pelo Comitê Olímpico, pela Fifa. Enfim, isso fez com que em um ano, mais de 150 países assinassem essa convenção. Então isso mostra bem o soft power que o esporte tem e como isso é importante para o ecossistema das Nações Unidas”.

O presidente da Fifa Master Alumni citou ainda pesquisas que mostram que o esporte diminui as doenças cardiovasculares, e gera melhora no desempenho escolar, reforçando assim metas das Nações Unidas presentes nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, ODS.

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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