Cerca de 12,5 milhões de portugueses e lusodescendentes festejam hoje o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. 

A data marca a morte do poeta Luís de Camões e homenageia o país, a cultura lusófona e a presença dos portugueses em todo o mundo.

Maioria vive na Europa 

Segundo a ONU, em 2024, o número de portugueses espalhados pelo mundo era de cerca de 1,8 milhão. A maioria destes emigrantes portugueses vivendo na Europa — aproximadamente 1,3 milhão — está concentrada em três países: França (577 mil), a Suíça (203 mil) e o Reino Unido (156 mil). 

Por sua vez, 468 mil residem nos continentes americanos, onde o Brasil acolhe o maior número de emigrantes (146 mil).

Com 883 anos de história, a marca de Portugal no mundo prende-se a um passado repleto de marcos históricos, imortalizado pela língua que serve de idioma oficial a aproximadamente 300 milhões de pessoas. Através dos testemunhos de Ana Quelhas, Daniel Rodrigues e José Simões, procuramos perceber o que significa ser português, na voz daqueles que partilham a essência portuguesa pelo mundo.

“É um orgulho enorme viver neste pequeno canto do mundo” – Daniel Rodrigues

Daniel Rodrigues nasceu em 1987, na cidade francesa de Compiègne, filho de emigrantes portugueses. Apesar de ter crescido em França, a sua identidade vinculou-se, desde cedo, a Portugal. “Nunca me senti francês”, confessa. “Cresci e fui educado como um português, e foram sempre essas as minhas raízes”.

Ainda em criança, os trajetos  de comboio entre França e Portugal reforçaram a ligação ao país e despertaram-lhe o gosto pelas viagens. Recorda-se de permanecer acordado durante a travessia noturna dos Pirenéus, onde assistia, fascinado, à mudança de eixos entre a bitola francesa e a ibérica, “como se de um filme se tratasse”. Foi aí, acredita, que nasceu o gosto por viajar, ao qual mais tarde aliou à fotografia.

O fotógrafo de 39 anos já percorreu mais de 30 países. Em 2012, participou numa missão humanitária em África, continente pelo qual sempre nutriu um fascínio particular. Na aldeia de Dulombi, na Guiné-Bissau, a sua fotografia de um grupo de crianças a jogar futebol num campo outrora utilizado por combatentes portugueses valeu-lhe o prémio World Press Photo, na categoria Daily Life.

Arquivo pessoal
Daniel Rodrigues

Foto que mudou a vida

“Essa fotografia mudou completamente a minha vida. Foi o meu primeiro contacto com África e com outros países lusófonos”, recorda. “E dei por mim a querer visitar outros países de língua portuguesa, com o objetivo de conhecer as raízes de Portugal espalhadas pelo mundo”, prossegue. Esse interesse levou-o a visitar países como Moçambique, São Tomé e Príncipe e o Brasil.

Nas suas viagens, a língua portuguesa não funciona apenas como instrumento de comunicação. Entre povos de língua portuguesa, permite-lhe criar laços de confiança e proximidade, imprescindíveis para o seu trabalho. “O facto de falar português faz-me sentir em casa nestes países”, nota. “Faz-me sentir entendido e permite que outras pessoas ouçam a minha própria voz e a minha própria história, sem necessidade de um intérprete, o que faz toda a diferença”.

Improviso português 

Ao recordar a passagem por vários continentes, o fotojornalista sublinha que a sua portugalidade não se circunscreve à origem ou à língua. Manifesta-se, ainda, na sua forma de estar e de encarar o desconhecido, marcada por um sentido de improviso tipicamente português.

“Nós usamos muito a expressão do ‘tuga desenrascado’, aquele que consegue arranjar sempre uma maneira de resolver as coisas”, explica, qualidade que aponta como determinante no seu percurso. “Acho que não conseguiria fazer metade das coisas que fiz se não fosse português”.

O desenrasque permitiu-lhe aventurar-se muito para além das fronteiras do mundo lusófono, desde travessias de comboio na Índia e na Mauritânia, a estadias com tribos indígenas na floresta amazónica e reportagens na linha da frente da guerra da Ucrânia. Já em 2023, realizou uma viagem de mais de 6 mil quilómetros de bicicleta elétrica, desde o litoral da Cidade do Cabo, na África do Sul, até aos planaltos de Nairobi, no Quénia.

Sardinha na brasa

Olhando para trás, entende que o facto de ser português “abriu mais portas do que aquelas que fechou”. Em viagem, dá por si a valorizar ainda mais o seu país. “Quando viajo e conheço outras culturas, começo a dar mais importância às pequenas coisas: as festas populares, a sardinha na brasa, a cerveja na esplanada, o passeio junto à praia, o convívio… coisas que muitas vezes damos como garantidas”.

Este vínculo íntimo a Portugal foi, por vezes, determinante. Na travessia de África de bicicleta, em 2023, esteve prestes a desistir. Parado na berma (acostamento) das longas estradas do Botswana, não encontrara vivalma capaz de amparar a sua desilusão. Sem forças para continuar, avistou uma carrinha a aproximar-se e apercebeu-se, numa breve troca de impressões, de que se tratava de compatriotas. “Encontrar um português a dar-me força e a insistir para não desistir foi a minha salvação”, conta, acrescentando que “fez-me recuperar o ânimo e seguir com a minha viagem por mais três meses”.

ONU News/Leda Letra
Junho é o mês das festas dos Santos Populares, em Lisboa, com sardinhas assadas na grelha.

Escolho Portugal

No seu entender, ser português no mundo traduz-se num sentimento misto de orgulho, resiliência e pertença, que não desvanece com a distância ou o contacto com novas realidades. “É um orgulho enorme ser português. Eu podia viver em qualquer sítio do mundo, mas escolho Portugal e escolho a cidade do Porto, porque é um orgulho enorme viver neste pequeno cantinho do mundo”, remata.

“Ser português é saber que um dia podemos voltar” – Ana Quelhas 

Aos 18 anos, Ana Quelhas deparou-se com uma decisão difícil. A jovem portuguesa, que sonhava em seguir a via artística, viu-se, contudo, rendida ao fascínio pela engenharia aeroespacial. Tal como milhares de jovens portugueses, decidiu prosseguir os estudos no estrangeiro. A viver no Reino Unido desde 2020, frequenta engenharia aeroespacial e encontra-se atualmente a realizar um doutoramento na Universidade de Bristol. Foi uma decisão ousada: “Se vou arriscar, vou arriscar fora do país”, recorda, em busca de novas oportunidades.

No Reino Unido, admite que o maior choque não foi linguístico. Apesar de um período de adaptação ao inglês britânico, o maior desafio foi adaptar-se à multiculturalidade de Bristol. Sublinha que “nunca tinha experienciado este nível de diversidade cultural em Portugal”. A conciliação de ideias opostas em sala de aula nem sempre foi fácil, mas revelou-se um exercício de que não prescinde. “Todos nós temos algo a aprender com o outro”, defende, acrescentando que “são experiências que não trocaria por nada”.

Arquivo pessoal
Ana Quelhas

Mãe brasileira 

A mudança de país significou a utilização de uma nova língua e, com isso, uma nova forma de pensar o mundo à sua volta. “Às vezes, dou por mim a pensar em inglês”, partilha. Apesar da adoção de um novo idioma, afasta a ideia de perda da sua identidade portuguesa. Cita o exemplo da sua mãe brasileira: “Ao crescer, vi a minha mãe a perder o seu sotaque, mas a manter a sua identidade cultural dentro de casa. Isso ajudou-me a lidar com o mesmo processo na minha vida adulta”.

Lógica transcultural 

Para Ana, a sua identidade não constitui um bloco intransigente, mas antes uma composição de traços portugueses, britânicos e até mesmo brasileiros. A sua visão reflete uma lógica transcultural: “Acredito que a beleza desta época da humanidade reside na capacidade de acolher traços culturais de diferentes culturas com as quais nos identificamos, permitindo construir a nossa própria identidade”, sustenta.

Ainda assim, valoriza vários elementos da portugalidade que não encontra no Reino Unido. Destaca o sentido de comunidade, a hospitalidade e a interajuda como marcas da cultura portuguesa. Já as diferenças entre os dois países residem também na qualidade de vida: “O nível de segurança, o estilo de vida, a qualidade da educação e da saúde são aspetos que ainda não consegui encontrar no Reino Unido”, observa.

Família e feriados portugueses 

Com os olhos postos no futuro, também a forma como se vive a família pesa no seu balanço entre realidades. “A forma como encaramos a unidade familiar é muito diferente da dos britânicos”, nota. “Pessoalmente, não gostaria de criar uma família num lugar onde o mundo a minha volta não nutrisse esse mesmo sentido de comunidade que encontro em Portugal”.

Para a jovem, ser uma mulher portuguesa reside no amor pela liberdade. “Estar aqui, sozinha, como mulher, a estudar no ensino superior seria impensável para a geração das minhas avós”, recorda, acrescentando que todos os anos, a 25 de abril, celebra, à distância, a Revolução dos Cravos e o nascimento da democracia portuguesa.

Partindo dessa liberdade, associa também a portugalidade à capacidade de arriscar e de desbravar novos caminhos pelo mundo fora. “Na escola, aprendemos que conquistámos o mundo. E acredito que a nossa própria identidade está relacionada com o facto de não recearmos o mundo à nossa volta, de ir sempre um pouco mais longe, mas saber que podemos sempre voltar para o nosso cantinho de terra, em Portugal”, conclui.

“Sinto que a língua portuguesa é a minha mãe” – José Simões 

Para José Simões, a portugalidade não constitui um domínio exclusivo do espírito e da cultura portuguesa, mas antes um elemento partilhado entre as comunidades lusófonas. “Para mim, a portugalidade é de todos os que falam a língua portuguesa e, sobretudo, de todos aqueles que a amam, seja ela a língua mãe, utilitária ou ensinada”, afirma o docente e investigador na Universidade de São José, em Macau.

Arquivo pessoal
José Simões

O professor universitário de 62 anos assinala uma relação sustentada pelos vínculos culturais e linguísticos que unem as comunidades lusófonas no mundo. “A portugalidade insiste nesta troca que outras línguas não possuem, dotada de uma componente de irmandade”, observa, reconhecendo no português uma “língua de união entre os diferentes povos” das comunidades lusófonas.

Macau e  português 

No entanto, salienta as disparidades da língua portuguesa no mundo. “Eça de Queirós falava do português do Brasil como sendo o português com açúcar. Eu costumo dizer que o português de Portugal é o português com sal”. E completa: “o facto de os brasileiros falarem mais devagar e de pronunciarem as palavras com maior nitidez torna o português do Brasil mais fácil de ser assimilado, aprendido e estudado por outros povos”, explica.

Já em Macau, onde leciona, apenas 2% da população fala português. Ainda assim, identifica vestígios da língua espalhados pela região administrativa especial da China, que permaneceu, até 1999, sob tutela portuguesa. “O português está no nome das ruas, dos estabelecimentos e nos meios de comunicação”. A uma distância de mais de 10 mil quilómetros de Portugal, considera que o contacto diário com a língua portuguesa “constitui um enorme privilégio”.

Cristiano, língua e portugalidade

No exterior, a presença de Portugal não se afirma apenas pela língua, mas também por símbolos que ajudam a projetar a identidade nacional no mundo. Do pastel de nata ao futebol, estes são alguns dos sinais mais reconhecíveis da portugalidade. “Jogadores como João Neves, Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes são autênticos embaixadores e representam aquilo que é ser português. E isso deve encher-nos de orgulho, o que nem sempre acontece”, aponta.

Lamenta que o sentimento de orgulho dos seus compatriotas nem sempre se traduza numa união mais forte entre os portugueses. Reconhece, ainda, “uma espécie de inveja dos bem-sucedidos” em vários quadrantes da sociedade, mas rejeita a noção dos portugueses como um povo derrotado pela própria história. “Com apenas 10 milhões de habitantes, somos um país reconhecido e admirado à escala global”, sublinha, “e essa admiração estende-se desde o trabalhador emigrante em França na década de 1960 até aos portugueses presentes em qualquer outra parte do mundo”.

Minha Pátria 

Para o docente, a portugalidade também se manifesta nos encontros entre compatriotas longe de casa. Evoca como, ainda recentemente, foi calorosamente recebido na apresentação de uma obra da sua autoria na cidade de Díli, num gesto que descreve como tipicamente português: “Existe, de facto, esta hospitalidade que é única de Portugal e dos portugueses”. Já entre os próprios timorenses, nota como os portugueses são referidos como “grandes irmãos”, um gesto que, no seu entender, constitui mais uma prova de “amor à portugalidade e à língua portuguesa” no exterior.

Na perspetiva de José Simões, a língua portuguesa representa muito mais do que uma pátria: “Sinto que a língua portuguesa é a minha mãe. Guardo um amor à língua portuguesa muito semelhante àquele que tenho pela minha mãe. E tenho a certeza de que é exatamente isso que muitos outros pensam”, conclui.

 

*Jornalista estagiário da ONU News.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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