A 26ª Conferência Internacional de Aids foi aberta nesta segunda-feira no Rio de Janeiro, em meio a um paradoxo. Por um lado, a ciência traz uma revolução na prevenção do HIV, com medicamentos que oferecem um nível de proteção contra o vírus semelhante ao de uma vacina. 

Por outro, ativistas apontam a distribuição desigual desses fármacos, devido aos preços altos determinados pelas empresas que detém as patentes farmacêuticas. Essa é uma das preocupações apresentadas no relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas, sobre HIV/Aids, divulgado no início do evento.  

Desigualdades globais

O vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, Abia, coorganizadora da conferência, falou sobre o assunto em um evento paralelo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp 

Veriano Terto Jr., que vive com HIV há mais de 30 anos, lamentou as decisões comerciais que estão reforçando desigualdades globais. 

“A América Latina, o Caribe e vários países africanos contribuíram enormemente para o desenvolvimento das novas tecnologias de prevenção, mas somos excluídos disso. E somos excluídos de uma maneira arrogante, de uma maneira grosseira”.

Ele explicou que apesar de ter participado dos ensaios clínicos que ajudaram na aprovação do medicamento lenacapavir, por exemplo, o Brasil foi excluído da lista das nações autorizadas a produzir versões genéricas mais baratas. 

ABIA
Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, ABIA, fala na Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro.

“Inovação sem acesso, é injustiça”

O lenacapavir é um medicamento injetável de longa duração, e com apenas duas injeções por ano, previne o HIV em quase 100% dos casos, segundo estudos mais recentes. 

A Abia lidera o Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual, GTPI, que realizou um estudo demonstrando que o Brasil teria capacidade de produzir localmente o lenacapavir por cerca de R$ 372 por paciente por ano. O preço da versão patenteada supera os US$ 20 mil e é considerado inviável para o sistema público brasileiro.

A diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima afirmou que “inovação sem acesso não é inovação, é injustiça”. 

Para ela, “o verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los e a um preço acessível”.

O Unaids estima que 20 milhões de pessoas precisam ter acesso à prevenção baseada em medicamentos para gerar um impacto real.

Financiamento mais baixo em quase duas décadas

O relatório da agência afirma que este acesso limitado às opções de prevenção, em meio a um contexto de cortes massivos de financiamento, pode significar um ressurgimento da epidemia.

Embora a incidência e a mortalidade pela doença estejam nos níveis mais baixos em mais de 30 anos, a resposta global é considerada extremamente frágil. As novas infecções aumentaram em três regiões e em 21 países em 2025.

O financiamento internacional para HIV caiu mais de US$ 1,5 bilhão, entre 2024 e 2025, uma redução de 18% e o menor nível registrado em quase duas décadas. 

Além disso, a ajuda global ao desenvolvimento caiu 23% em 2025, a maior redução já registrada, e uma grande parcela desse corte atingiu programas de saúde global, incluindo os de HIV.

ONU/Eskinder Debebe
A diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, informa a jornalistas sobre a audiência preparatória para a Reunião de Alto Nível de 2026 sobre HIV/Aids

Risco de colapso dos serviços

Byanyima afirmou que este momento deve ser encarado como “o fim da dependência da ajuda internacional”. 

Ela defendeu a criação de um novo modelo de financiamento, que use estratégias como a reestruturação das dívidas públicas para que os governos possam investir “no futuro de suas populações”.

Organizações lideradas pela comunidade receberam até 25% da assistência externa destinada ao HIV em 2024. Pesquisas mostram que, em alguns países, essas organizações alcançaram 22% das pessoas vivendo com HIV e até 60% das populações marginalizadas com serviços que salvam vidas.

 Sem o apoio dos doadores e sem um fortalecimento do investimento doméstico, os serviços de prevenção ao HIV e as abordagens comunitárias correm o risco de entrar em colapso total.

Grupos mais vulneráveis

Os dados da Unaids indicam que as grupos mais vulneráveis a infecção por HIV são pessoas que fazem uso de drogas injetáveis, homens que fazem sexo com homens, mulheres trans e profissionais do sexo. 

A agência ressalta que não é possível acabar com a Aids enquanto esses grupos continuarem sendo criminalizados. 

Em 2026, 168 países criminalizam o trabalho sexual e 152 a posse de pequenas quantidades de drogas. Além disso, 66 nações condenam as relações sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo e 14 as pessoas transgênero.

Apesar dos retrocessos em direitos humanos, em junho de 2026, 149 Estados-membros da ONU adotaram uma Declaração Política sobre HIV e Aids. 

As novas metas incluem 40 milhões de pessoas em tratamento e 20 milhões de pessoas com acesso à prevenção baseada em medicamentos. Os objetivos também estabelecem que menos de 10% das pessoas vivendo com HIV ou em risco de infecção sofram estigma e discriminação.

UNAIDS
Um homem no Uzbequistão mostra o medicamento que toma para combater o HIV

Dados do relatório

  • 2025 registrou 1,2 milhão de infecções e 570 mil mortes por HIV/Aids
  • 22% das pessoas que vivem com a doença estão sem receber tratamento
  • Os recursos internacionais diminuíram 18%, a maior queda em duas décadas.
  • Medicamentos novos, como lenacapavir, previnem quase 100% das infecções
  • 20 milhões de pessoas precisam ter acesso à esse tipo de prevenção 
  • Versões genéricas de lenacapavir custarão US$40 por ano, mas não estarão disponíveis em muitos países

 

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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