A língua portuguesa está presente num universo de cerca de 300 milhões de pessoas em 4 continentes e é cada vez mais usada como via de conexão e aproximação entre múltiplas culturas. O idioma que saiu de Portugal com as Grandes Navegações deixou marcas de leste a oeste e de norte a sul do globo.

Desde 2019, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, celebra o Mundial da Língua Portuguesa, a cada 5 de maio. Para marcar a data, o Podcast ONU News conversou com dois influenciadores digitais que colocam em prática essa função essencial do idioma de conectar culturas.

Português falado em África

O youtuber angolano Baptista Miranda tenta levar ao público brasileiro a realidade dos países que falam português na África; já Nabila Yousif, que saiu refugiada da Síria para o Brasil por causa da guerra, hoje usa as redes sociais para ensinar sobre a língua e a cultura árabes, que segundo ela desperta “bastante curiosidade”.

Baptista acha divertido quando é confundido por um estrangeiro que não fala português no Brasil. E segundo ele, é tudo por causa do sotaque de Benguela, a província de Angola, onde nasceu.

“Para mim é muito engraçado. Já houve épocas que eu estava a andar com o Uber e ele perguntou ‘de onde é que você veio?’. E eu dizia da África. E ele respondeu ‘nossa, fala muito bem português!’. Na minha cabeça eu pensava: mas eu falo desde criança. Então é muito engraçado. Mas eu também entendo esse lado do pessoal achar que, talvez em África, não tem países que falam português porque realmente não se propaga muito essa informação. É muito desconhecido. Então eu fico muito feliz em ser uma das pessoas também que leva essa mensagem pra diante, que tem mais de cinco ou seis países em África que falam português e tem culturas diferentes, então eu gosto muito disso”.

Novelas brasileiras como fonte de aprendizado

Já Nabila teve que aprender o idioma do zero em 2012, quando chegou ao Brasil “sem saber uma palavra” em português. Com muita dedicação e força de vontade, ela conta que conseguiu se tornar fluente no prazo de um ano e estudando sem parar.

“Eu fazia aulas intensiva três vezes por semana e eu estudava quase 24 horas por dia sem parar. Estudava o tempo inteiro, começava a escutar músicas do Luan Santana sem entender. Eu assistia às novelas. A Carminha, Salve Jorge. Também não entendia nada, mas eu colocava lá na televisão e fazia tipo intensivo. E aí o tempo inteiro. Mudei meu celular era inglês, mudei para português e o árabe falava só em casa com os meus pais. E foi assim, meu português foi melhorando”.

E quando se fala em novela, o influenciador angolano diz que os folhetins foram também para ele uma fonte de estudo fundamental sobre a cultura brasileira. 

“Eu tenho um repertório de novela brasileira muito grande, porque era recorrente eu assistir à novela brasileira no horário de jantar. Sempre passava novela brasileira. Sempre tive esse contato com novela, música. Então foi muito fácil para mim vir para o Brasil e saber muita coisa já sobre o Brasil. Por conta disso, inclusive lá em Angola tem um meme que dizem que no Brasil todo mundo come bem no café da manhã, por conta das novelas, porque é sempre recheado e não sei quê. Eu cheguei aqui e até agora só miojo no café da manhã. Não tem nada”. 

Nabila reagiu sorrindo e recomendou a Baptista fazer mais amizades com os árabes, que costumam fazer um café da manhã bastante farto. 

Nabila Yousif/arquivo pessoal
Nabila Yousif com a família durante seu casamento em 2025, em Florianópolis, Brasil

Brasileiros e árabes são “fofoqueiros”

Ela comentou sobre as semelhanças entre brasileiros e árabes, dizendo que ambos os povos são muito “receptivos, carinhosos e fofoqueiros”. A professora enfatizou que existem muitas palavras que são comuns aos dois idiomas. 

“No português, hoje, existem entre 600 a mil palavras que são de origem árabe, e no espanhol, a gente tem de 3 mil a 4 mil palavras. Isso foi porque os árabes dominaram algumas regiões por muito tempo lá na Península Ibérica. E aí qualquer palavra que vocês usam aqui no Brasil que ela começa com Al, elas são geralmente de origem árabe, tipo algodão, almofada, azeite, açúcar, alfândega, alface, almirante são todos de origem árabe”.

No nível pessoal, ela considera que falar português evidencia um lado mais “fofo e carinhoso” de sua personalidade, em comparação ao árabe, que soa mais sério e direto. 

Valorização da saúde mental

Para Nabila, o novo país, que fala português, representa segurança após os traumas da guerra na Síria.  Baptista também fala do Brasil como uma espécie de porto seguro e de cuidados, onde aprendeu a ser mais sentimental e se abrir mais com os amigos, uma atitude que, segundo ele, seria “quase impensável em países africanos”. 

“Eu acho que eu mudei muito a minha forma de pensar com relação a bastante coisas, com relação a alguns preconceitos que eu tive por viver lá. Por exemplo, o preconceito de fazer terapia, de cuidar da cabeça. Até hoje meus amigos acham que eu virei branco por simplesmente começar a fazer terapia. Daí eu preciso parar de fazer, que é pra agradar eles. Então estou muito nesse limbo aqui. Viver aqui (no Brasil) me ajudou muito a enxergar isso, a enxergar que você tem que se cuidar. Então isso foi algo que lá (em Angola) dificilmente nós temos essa conversa”. 

Para Nabila, saber português também permite a ela apoiar muitas pessoas, especialmente refugiados. Ela ajuda com traduções de documentos, consultas médicas e até tenta dar dicas a algumas brasileiras para evitar que caiam em golpes por não entender outras culturas.

Baptista Miranda/Arquivo pessoal
O youtuber de Angola, Baptista Miranda, vive atualmente no Brasil

Apoio a refugiados

Nabila foi a estrela de uma campanha de rede social no Instagram para promover ajudar alimentar em parceria com a Agência da ONU para Refugiados, Acnur, por meio da campanha “comida pra viagem”. A síria naturalizada brasileira declarou que se identifica muito com a causa da agência e que quer continuar ajudando pessoas que, assim como ela, passaram por uma situação de refúgio. 

A jovem síria contou como a guerra no seu país natal mudou completamente a vida da sua família. 

“A guerra começou em 2011. Eu frequentava a faculdade e não deixava isso me parar de ir, porque o risco a gente podia enfrentar mesmo estando em casa. Só que depois de um ano não dava mais. Caiu uma bomba bem do lado da escola dos meus irmãos e aí tinha muito risco que eles tivessem morrido naquele momento. E aí foi lá que o meu pai decidiu que a gente tinha que largar tudo. Foi uma decisão bem difícil”.

A importância das línguas locais

Já Baptista se mudou sozinho, mas sonha em levar a família para conhecer o Brasil. Ele conta que cresceu numa casa cheia, com 12 pessoas, incluindo seis irmãos, tias e primos.

Das memórias familiares, ele se lembra de ouvir sua avó falando em Kimbundu, uma das maiores línguas locais de Angola. O influenciador disse que gostaria muito que os africanos aprendessem essas línguas locais nas escolas, assim como se ensinam línguas estrangeiras, como inglês e francês. 

Para ambos os influenciadores, o português é um caminho para construção de pontes, quebra de preconceitos e de presunções sobre esta ou aquela cultura. Para eles, a língua também ajuda a abrir novas portas em suas respectivas histórias de vida.

*Felipe de Carvalho é redator da ONU News Português.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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