Muitas formas de vida que existem no planeta Terra dependem de seres que, embora estejam por toda parte, são frequentemente esquecidos: os fungos. Sem eles, milhões de plantas e animais não sobreviveriam. 

Sob a liderança da bióloga portuguesa Cátia Canteiro, um grupo de cientistas de mais de 30 países se uniu para dar aos fungos a importância que eles merecem nas estratégias de proteção da biodiversidade. 

Sustentação da vida na terra e na água

O grupo elaborou a primeira Estratégia Global de Conservação dos Fungos. O documento será lançado neste 21 de outubro, durante a 17ª Conferência da ONU sobre Biodiversidade, que decorre em Yerevan, na Armênia, até 30 de outubro.

Em entrevista para a ONU News, de Londres, a caminho da COP17, Cátia Canteiro explicou a importância desses organismos para a saúde do planeta e o bem-estar dos seres humanos. 

“Os fungos ajudam na composição de nutrientes e fazem voltar o ciclo do solo, renovar a matéria orgânica e voltar a dar nutrientes ao solo. Eles ajudam com a estabilização do solo, e com a estrutura do solo. O mesmo na água. Tem fungos decompositores na água que fornecem alimento aos peixes e outros animais. Os fungos estão em todo o lado. Quando a gente começa a ver nas nossas vidas o nosso café, o pão. O fermento do pão é um fungo, que faz esse papel. Então eles estão mesmo em todo o lado”. 

Papel-chave na contenção de carbono

Os fungos micorrízicos, por exemplo, formam vastas redes subterrâneas que transportam nutrientes e água para 90% das plantas do mundo. Em contrapartida, as plantas fornecem carbono aos fungos, sendo que grande parte desse carbono é armazenada no solo em vez de ser liberada na atmosfera.

A especialista conta que esta é uma enorme contribuição dos fungos no “sequestro de carbono”, que ajuda a conter o avanço da crise climática. 

Esses organismos também ajudam as plantas a se adaptarem a condições de seca, em meio ao aquecimento global cada vez mais intenso. 

Cátia Canteiro/Arquivo pessoal
A bióloga portuguesa Catia Canteiro lidera a Estratégia Global para a Conservação de Fungos.

Uma luta para integração dos fungos

A bióloga acredita que a Estratégia que está sendo lançada vai suprir uma lacuna importante, pois muitas leis e políticas voltadas para a proteção de plantas e animais raramente se aplicam aos fungos.

“Nós queremos que haja uma integração. Nós não queremos que se desenvolva novas metodologias, novos indicadores, novas coisas para os fungos. Nós realmente queremos a integração, integrar os fungos nos mecanismos que já existem. Eu acho que isso é realmente essencial”.

Cátia Canteiro disse que o resultado esperado é a expansão de pesquisas, pois menos de 10% das espécies de fungos em todo o mundo foram sequer descritas pela ciência, mas também a ação imediata de governos na proteção de espécies ameaçadas.

Um levantamento da União Internacional pela Conservação da Natureza, Iucn, indica que 30% dos fungos avaliados para risco de extinção estão sob ameaça. 

A pesquisadora portuguesa disse que, tal como animais e plantas, os fungos sofrem com a perda de habitat causada pela poluição e pelas mudanças climáticas. 

Cogumelos para fins medicinais e recreativos

Ela também comentou o interesse crescente no uso de cogumelos para fins medicinais e recreativos, afirmando que esta “moda” traz uma visibilidade positiva, mas cria o risco da extração excessiva.

“Então a moda como tem, é bom porque as pessoas finalmente estão a começar a pensar em fungos. Mas temos que ter muito cuidado na maneira como nós os usamos, principalmente quando este movimento é coleta de espécies”. 

A bióloga ressaltou que na África do Sul, por exemplo, várias populações de fungos desapareceram por causa da coleta insustentável para uso recreativo. Ela defendeu regulações claras que definam o que pode ser coletado e como deve ser feito o uso sustentável.

Shaneya Miriyagalla
fungos encontrados durante uma única tarde em Wisconsin

Brasil, o resgate de fungos ameaçados

A pesquisadora também mencionou exemplos positivos de conservação, inclusive no Brasil, onde foi criada uma coleção de fungos ameaçados, semelhante a um banco de sementes. 

A iniciativa, liderada pela Universidade Federal de Santa Catarina, cultiva espécies sob risco e depois faz a reintrodução no estado selvagem, oferecendo assim um reforço genético para que essas populações de fungos consigam se recuperar.

O processo não é tão simples como o das plantas, pois os fungos precisam sempre de um hospedeiro.

Cátia Canteiro revelou que essa é justamente a característica que mais admira nesses seres: o fato de deixarem evidente a conexão que une as várias formas de vida e nutre o ambiente onde elas vivem. 

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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