Quando os chefes de Estado e Governo das nações que falam o português se reuniram em Lisboa, em 1996, para inaugurar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp, pouco se sabia sobre as proporções geoestratégicas que o bloco assumiria.

A proposta inicial, surgida no estado brasileiro do Maranhão, era formar o Instituto Internacional de Língua Portuguesa – encarregado de política da língua falada pelos quatro cantos do globo – e criar uma comunidade no modelo da britânica Commonwealth, mas o que saiu do papel acabou ganhando uma “representatividade global”.

Mais de 20 intervenções conjuntas na ONU

Hoje, às vésperas de completar 30 anos, neste 17 de julho, a Cplp se converte em uma “plataforma visível” e respeitada com capacidade de interlocução no cenário internacional, como afirmou à ONU News, o embaixador de Portugal nas Nações Unidas, Rui Vinhas.

“É muito interessante que nós começamos por fazer aqui intervenções, nas Nações Unidas, conjuntas da Cplp, centradas no multilinguismo e fomos alargando esse leque de intervenções, quer no seu escopo, quer nos diferentes órgãos onde falamos.  Já falamos no Conselho de Segurança, por exemplo. E, portanto, o ano passado fizemos 20 intervenções, o que é notável. Este ano, ainda estamos na metade mais ou menos, já fizemos 15 intervenções em nome da Cplp. E, portanto, a Cplp tornou-se uma plataforma visível que os outros Estados reconhecem e respeitam. E isto suscita, obviamente, interesse.”

E o interesse vem acompanhado de mais de três dezenas de inscrições de Estados-observadores associados para seguir o trabalho do bloco. A cada Cimeira dos Líderes da lusofonia, essas entradas são endossadas e anunciadas. 

EUA, Índia e Japão

Estados Unidos, Índia, Reino Unido, França, Japão, Catar, Argentina, Itália e Geórgia são alguns dos Estados observadores do bloco, que segue crescendo, como lembrou o embaixador Rui Vinhas.

“Eu sou bastante confiante e optimista em relação à Cplp. Acho que temos uma margem e um potencial de progressão e de aprofundamento da cooperação entre os nove países muito grande. E acho que existe, regra geral, vontade política de todos os países em aprofundar isso. É evidente que esta diferença que existe entre a Cplp e outras organizações é que a Cplp, tem o que é simultaneamente uma fragilidade e uma vantagem, uma fortaleza, que é esta dimensão arquipelágica. Nós estamos espalhados por quatro continentes. Isto, obviamente, introduz limitações. Nós não somos como a União Europeia ou como a Sadc, Cedeao, União Africana ou Mercosul. Obviamente, que ali, há uma contiguidade geográfica, que facilita algumas dimensões da cooperação. Mas ao mesmo tempo, isto dá-nos uma grande força porque dá uma representatividade global e a inserção de cada um de seus membros nas organizações sub-regionais.”

Timor-Leste: uma ponte na Ásia

A mais recente ponte regional neste tabuleiro geopolítico é a Associação das Nações do Sudeste da Ásia, Asean, que no final de 2025, recebeu o Timor-Leste como membro. 

O país de língua portuguesa abriu as portas da região para a Cplp, em 2002, ao se associar à Comunidade lusófona logo após a restauração da sua independência.

Com sede no Palácio Penafiel, em Lisboa, a Cplp se concentra em três pilares: o de concertação política, a promoção da língua, a cooperação multilateral. O bloco apoia a ampliação da presença do português em organizações internacionais por ver na língua também uma oportunidade da sua própria afirmação política de seus interesses como nações e organização.

Por sua vez, Portugal prioriza a Comunidade como um de seus eixos de política externa ao lado da Europa e do Atlântico. Para o embaixador português junto à ONU, promover a língua comum é fazer avançar o interesse de todos sem deixar ninguém para trás.

Cipra
Organização com nove países-membros e 19 observadores associados adotou um acordo de mobilidade

Língua portuguesa é ativo político, econômico e cultural

“E o fator de língua também é algo que é muito importante. O português é, hoje, a língua mais falada no Hemisfério Sul com o potencial de crescimento. Não é só um veículo de comunicação, mas é também um ativo político, econômico e cultural. E nós não podemos esquecer e temos a aspiração que o português seja uma língua, cada vez, mais falada nas organizações internacionais.  É hoje falada como língua oficial em muitas organizações internacionais. Do Mercosul à Organização dos Estados Americanos, às organizações africanas, à União Africana, à Sadc, à União Europeia, obviamente. Mas temos uma aspiração maior de que o português se vá afirmando como língua de trabalho, dentro das possibilidades da Comunidade, porque tudo isso tem também custos, e é preciso vontade política também das organizações. Mas isto é uma aspiração que temos da afirmação da língua portuguesa e da projeção da língua portuguesa que é o grande fator de unidade entre esta Comunidade.”

Representantes dos países da Cplp participam durante todo este mês de uma série de eventos na sede da organização, em Lisboa, para marcar os 30 anos do bloco. 

O Encontro de Cúpula deve ser realizado em agosto, em Díli, Timor-Leste. Além da nação asiática são membros da Comunidade: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

*Monica Grayley é editora-chefe da ONU News.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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