Em discurso pela Semana de Ação Climática em Londres, o secretário-geral da ONU apresentou uma análise da realidade atual do mundo que considera “Conto (história) de duas crises”. Em sua visão, esse problema vai além de ser isolado, e se torna dolorido e conectado. 

Por um lado, António Guterres coloca a crise do clima que empurra as pessoas para temperaturas extremas e pontos sem volta. Por outro, aponta a crise energética global que expõe a fragilidade de um modelo que depende diretamente de hidrocarbonetos. 

Determinação, justiça e progresso

O pronunciamento citou o custo oculto da Inteligência Artificial. Pela primeira vez, o secretário-geral cobrou ação imediata das gigantes de tecnologia.  Até 2030, as operações de IA vão consumir mais eletricidade do que a maioria das nações. Para resfriar seus servidores, gastarão água suficiente para abastecer 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana durante um ano inteiro.  

O chefe da ONU disse que o valor da inovação não pode ser secreto e muito menos pago por quem tem menos recursos. Para ele, é hora de colocar as cartas na mesa e se o que se pretende é que a Inteligência Artificial de fato desenhe um futuro promissor, o primeiro passo é a transparência sobre os seus custos reais agora.

Unep/Thomas Mendel
Aumento do nível do mar transformaria partes da Floresta Amazônica em savana

António Guterres destaca um momento de enorme oportunidade e responsabilidade de se transformar a combinação de crises em uma única narrativa de determinação, justiça e progresso compartilhado. 

Ele argumentou que o momento atual é de escolha para se virar a página dos combustíveis fósseis e escrever um futuro sustentado por energias renováveis e enraizado na justiça climática num período de verdade e oportunidade de ouro. 

 A mensagem central do líder da ONU é que a força destrutiva por trás de ambos os cenários é a mesma, os combustíveis fósseis. A resposta exige uma transição rápida, justa e um enorme aumento na adaptação, resiliência e justiça climática para as populações que já sofrem os impactos mais severos.

Efeito do caos climático e do choque energético

Para revelar a magnitude do desafio financeiro e humanitário que o planeta enfrenta, o chefe da ONU lembrou que o mundo registrou os 11 anos mais quentes da história.

© Unsplash/Michu Đăng Quang
Proposta inclui transformar o atual sistema financeiro global

 

O aquecimento global ameaça colapsar sistemas de recifes de corais, derreter mais rápido as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental no que elevaria o nível do mar, redesenhando o litoral e deslocando milhões de pessoas. Ele destacou que a situação transformaria partes da Floresta Amazônica em savana.

Enquanto o mundo em desenvolvimento sofre com choques de dívida, alimentação e crescimento causados pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio, Guterres disse que os gigantes dos combustíveis fósseis lucram com a dor coletiva. 

Um dos exemplos são as oito maiores empresas do setor petrolífero registraram um lucro extra de US$ 6,5 bilhões apenas no primeiro trimestre deste ano. 

Além disso, em 2025, cerca de 167 bilhões de metros cúbicos de gás foram queimados diretamente na atmosfera, conhecida como flaring. A quantidade equivale a tudo o que o continente africano consome em um ano.

Energia limpa demonstra uma força sem precedentes

Guterres disse ainda que a economia da energia limpa demonstra uma força sem precedentes. No ano passado, a capacidade existente de energia renovável poupou US$ 480 bilhões em nível global em custos evitados de combustíveis fósseis. 

Com os investimentos em energia limpa atraindo quase o dobro dos recursos destinados aos combustíveis poluentes, Guterres defende que esse avanço não freou a injustiça financeira. 

JZ
Aquecimento global ameaça colapsar sistemas de recifes de corais

Mencionando o exemplo africano, ele disse que a região detém 60% dos melhores recursos solares do mundo, 30% dos minerais críticos e abriga um quinto da humanidade. No entanto, recebe 2% do investimento global em energia limpa, deixando mais de 600 milhões de habitantes sem qualquer acesso à eletricidade.

Para romper em definitivo com o que o chefe da ONU considera “modelo falido” e garantir a segurança energética global, expos a estratégia dividida em sete ações.

Sete passos para uma ruptura limpa

Como primeiro passo, ele sugeriu limitar o aquecimento ao nível de 1,5°C e combater o metano, com foco na redução drástica de resíduos, na modernização da agricultura e na eliminação total de vazamentos na indústria de petróleo e gás.

© Unsplash/Zach Theo
Oito maiores empresas do setor petrolífero registraram um lucro extra de US$ 6,5 bilhões apenas no primeiro trimestre deste ano

A segunda medida é que seja rompida a dependência e modernizada a infraestrutura taxando “lucros enormes das empresas petrolíferas” e direcionando esses recursos para apoiar famílias vulneráveis. Além disso, ele pediu uma reforma às redes de transmissão elétrica para serem tratadas como infraestrutura estratégica, com reformas regulatórias e licenciamentos que apoiem a era da eletrificação.

Como terceiro ponto, o secretário-geral pediu que seja confrontada a pegada ecológica da inteligência artificial cujas instalações podem consumir mais eletricidade do que a maioria das nações e gastar água suficiente para abastecer 1,3 bilhão de residentes da África Subsaariana por um ano até 2030. 

Corte de combustíveis fósseis e segurança econômica

Como quarto passo, António Guterres menciona a garantia de uma transição justa e coerente pela criação de um espaço prático e unificado entre produtores, consumidores, indústrias e trabalhadores para alinhar as metas de corte de combustíveis fósseis com a segurança econômica regional. 

A quinta medida é proteger comunidades com adaptaçãoimediata. Esse passo requer estabilidade e segurança e os países precisam integrar a resiliência climática em seus planejamentos nacionais, criar sistemas de seguros eficazes e implementar alertas precoces de desastres para todos em cumprimento ao compromisso de duplicar, e futuramente triplicar, o financiamento para a adaptação.

Como sexta etapa, a proposta é transformar o atual sistema financeiro global para que países ricos cumpram a promessa de entregar os US$ 300 bilhões acordados e traçar um caminho claro para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. 

Banco Mundial/ Mariana Ceratti
Para romper em definitivo com o que o chefe da ONU considera “modelo falido” e garantir a segurança energética global, expôs a estratégia dividida em sete ações

Para o chefe da ONU, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, que viram sua capacidade de empréstimo subir entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões, devem usar esse capital de forma agressiva. Os fundos de longo prazo chegariam a 50 anos e as garantias públicas atrairiam o investimento privado em mercados emergentes.

Dados fiáveis e comprovados

Como sétimo estágio, Guterres propõe a defesa da ciência e da integridade da informação. Ele explicou que a desinformação adia as ações climáticas e é usada de forma deliberada para proteger interesses financeiros estabelecidos. 

A ONU lidera a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas em favor da independência científica, dos jornalistas ambientais e do acesso irrestrito da sociedade civil a dados fiáveis e evidenciados.

Como o maior foco independente de debate climático europeu, a semana entre 20 e 28 de junho transforma a capital britânica no centro das decisões globais com mais de 750 debates envolvendo participantes das áreas política, financeira e ONGs.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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