Dandara Araújo da Silva é engenheira nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica, Aiea, em Viena. Mas antes de abraçar a profissão, a menina com mente inquisitiva e curiosa passou por vários estágios. Pensou em ser pedreira, veterinária, detetive, diplomata e advogada.
Hoje, aos 30 anos, e a milhares de quilômetros de sua cidade natal, São Gonçalo, no Rio de Janeiro, Dandara recorda nessa conversa com o Podcast ONU News como foi o momento decisivo a favor da engenharia, a mesma profissão do pai.
Matemática, o caminho lógico
“Eu descobri duas escolas técnicas: Química e Edificações. E eu passei para as duas. Então, o momento em que eu decidi qual iria fazer, porque a matrícula era no mesmo dia, e o caminho para ir para ambas as escolas era o mesmo caminho…Então foi uma questão de descer no ponto anterior para ir para a escola de química ou continuar no ônibus e descer para ir para a escola de edificações. E meu pai como engenheiro civil… Eu pensei que talvez eu queira edificações que é algo que dá para ser colocado em prática no cotidiano.”
Dandara lembra que ali, aos 15 anos de idade, pensou nas obras futuras em sua própria casa, que ela mesma poderia comandar com cálculos precisos de quem parece ter números no DNA.
Uma ponte no meio do caminho
Para a adolescente Dandara, talvez restasse alguma dúvida sobre a carreira. Mas o pai, Sr. Reginaldo, já sabia que a matemática era o caminho lógico para a filha única, que desde pequena dispensava ajuda no dever de casa, que fazia em tempo recorde.
E da escola técnica, Dandara foi estudar engenharia em uma das maiores instituições do país: a Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ufrj. O caminho até à faculdade era longo: percursos a pé, ônibus, uma ponte de 13 km, engarrafamentos e jornadas escolares de mais de 12 horas, que levariam a jovem brasileira a descobrir o mundo.
“No geral, eu tinha que pegar dois ônibus. Um trajeto que era rápido, era no mínimo uma hora e meia, uma hora e 40. Com o tempo, eu comecei a otimizar por exemplo, descendo no meio da ponte. E só nisso, eu acredito que eu tinha sorte, mas eu pagava só de transporte indo à Universidade, dois terços do salário-mínimo no Brasil. E assim, ter esse dinheiro para conseguir pagar, só o fato de conseguir chegar à Universidade. Foi após a separação dos meus pais. Eu chegava, 8h da manhã, para os primeiros cursos, e eu ficava lá até às 9h da noite para evitar pegar o trânsito para voltar para casa. Só de aguentar isso, tinha dia que eu voltava para casa chorando porque era tanto peso. E o contexto da Universidade também, muitas vezes, é um contexto muito elitista que vai separar grupos.”
Dandara Araujo da Silva apresenta uma palestra da Aiea sobre microreatores e fontes de energia nuclear para a exploração lunar.
Insultos e racismos
Preconceito e discriminação aliás nunca foram palavras desconhecidas para Dandara, e para os pais dela: Reginaldo e Magali. Eles escolheram o nome da filha em homenagem a uma guerreira negra. Desde o jardim da infância, ela escutava comentários ofensivos sobre sua aparência, seu nome, sua cor, sua origem humilde. Na hora do recreio, algumas crianças desferiam insultos, que tinham de ser explicados após as reclamações dos pais à Diretoria do colégio.
Além do racismo e do preconceito social, a engenheira nuclear lembra de vivenciar algo que se repete até hoje com outras crianças que não vêm de famílias ricas.
“O contexto não te empurra para ir longe. Na verdade, ele te puxa para a sua posição inicial. E isso eu sempre tiver que viver. E eu acho que a motivação dos meus pais me foi fundamental. Porque eles sempre disseram: ‘você pode ir longe’. Eles nunca me bloquearam, mas ao mesmo tempo existia o mundo que me bloqueava. É um mundo que infelizmente bota o pobre numa posição. Eu vou usar o exemplo do meu pai. Meu pai fez Engenharia Civil. Começou depois de ter começado a trabalhar e teve que largar Engenharia Civil no terceiro anos dos estudos porque ele precisa de dinheiro, precisava me sustentar.”
Nota 10 existe
Dandara recorda que o pai finalmente conseguiu exercer engenharia após três anos de faculdade. Foi ele quem transmitiu à filha o espírito de autocobrança. Quando ela tirava nota 8 ou 9, ele dizia: “Ótimo, mas lembra que existe o 10.”
Já dona Magali era animadora cultural. Cursou direito após ter a filha, que muitas vezes era obrigada a acompanhar a mãe na faculdade para não ficar sozinha em casa. Ao perceber que somente a educação a tiraria de um contexto de desvantagem para um de realização profissional, Dandara partiu para uma seara conhecida de muitos estudantes sem recursos: as bolsas de estudo.
“O Brasil estava com o projeto do Ciência sem Fronteiras. Eu descobri que existia essa possibilidade porque era inimaginável ir com meus próprios fins para fora do Brasil. Então com o Ciência sem Fronteiras, abriu-se essa porta para poder viajar para outros lugares do mundo. Eu já tinha estudado inglês, eu tinha um certo nível de inglês. E na Ufrj, existia essa possibilidade que era mais aberta para mais países, ou tinham programas de duplo diploma com a França. E com a crise financeira no Brasil, acabou que o Ciência sem Fronteiras se tornou muito mais restrito e acabou sumindo um pouco, no momento em que eu poderia fazer o meu intercâmbio. E ao perceber essa redução das ofertas do Ciência sem Fronteiras, eu falei: Eu preciso aprender francês.”
Dandara recorda nessa conversa com o Podcast ONU News como foi o momento decisivo a favor da engenharia, a mesma profissão do pai.
Bolsa de estudo na França
E a partir daí, o mundo de Dandara deu uma guinada. Estudou sozinha em um curso pela internet numa era anterior aos aplicativos de idiomas. E com o francês na ponta da língua, foi atrás de uma bolsa de estudo na França. De lá passou a trabalhar no país europeu. Após anos de trabalho e devoção à pesquisa, ela sentiu que era hora de se naturalizar francesa.
Ao obter o passaporte, concorreu a uma vaga como Profissional Júnior, um posto patrocinado pelo Governo da França para jovens que começam no mercado de trabalho, em organizações internacionais como as Nações Unidas.
Determinação supera obstáculos
E como engenheira nuclear, o caminho natural era a maior instituição sobre o tema no mundo: a Agência Internacional de Energia Atômica, Aiea, com sede em Viena na Áustria, onde trabalha hoje.
Do caminho árduo das ruas de São Gonçalo a Niterói, ao Rio, à França e à Áustria, a história de Dandara prova que a determinação supera obstáculos internos e externos.
E ao ser perguntada sobre o que foi fundamental para o percurso de sucesso de uma periferia do Brasil até alguns dos centros mais disputados da Europa, ela falou de gratidão àqueles “heróis e heroínas” que a fortaleceram pelo caminho.
Dandara nasceu em São Gonçalo, nos arredores do Rio de Janeiro, ela investiu nos estudos, venceu barreiras raciais e socioeconômicas para realizar o próprio sonho de se formar.
Heróis no cotidiano
“Sim. Eu diria que são principalmente os meus pais, minhas avós. São os professores. Minha mãe é um exemplo de muita garra. Eu não falei muito (dela), mas minha mãe é uma mulher incrível. E foi com ela que eu aprendi a não enxergar barreiras como barreiras realmente, mas como novas formas de se inventar e de não se agarrar a uma ideia. Também foram todas as mulheres que eu encontrei, todas as minhas mentoras, minhas chefes, elas sempre me impulsionaram muito para o alto. Todas as pessoas que eu encontrei e que me disseram: ‘continue”. Nossos heróis estão no nosso cotidiano. Eles estão aqui é só enxergar e reconhecer essas pessoas que compartilham o amor e a vontade de ver a gente crescer.”
Mulheres na ciência, caminho a seguir
Há mais de um ano, Dandara perdeu o pai e um dos maiores incentivadores sobre aumentar a entrada de mulheres e meninas em áreas de ciência, engenharia, matemática e tecnologia.
Pelo mundo, essa grande torcida por esta e outras Dandaras, meninas com histórias semelhantes de superação, começa a ganhar força.
Há mais de 10 anos, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, marcado todo 11 de fevereiro.
Dandara Araújo com a avó paterna.
Inteligência artificial feminina
Apesar de mais mulheres que homens se matricularem em universidades pelo mundo, somente 35% das meninas se formam na área de ciências.
A meta é mudar as taxas de menos de um terço de pesquisadoras mulheres.
Atualmente, menos de 2% dos candidatos a postos do setor quântico são mulheres. E mais de 80% destas empresas são lideradas por homens.
Em áreas de vanguarda, como a inteligência artificial, apenas um em cada cinco profissionais (22%) é mulher.
Dandara hoje é parte da contracorrente nesse mar de estatísticas de desvantagem.
A história dela prova que a determinação própria com políticas de incentivo e patrocínio podem ajudar a mover qualquer barreira recalculando rotas e números para alavancar toda a humanidade.
Para muitos, esta é apenas uma questão de lógica…
*Monica Grayley é editora-chefe da ONU News Português.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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