O chefe de operações de campo na Ucrânia do Fundo da ONU para a Infância, Unicef, afirmou que o país atravessa atualmente “o momento mais crítico, difícil e grave” desde o início da guerra.
Kenan Madi descreveu “o inverno mais difícil que a Ucrânia viu até agora”, em entrevista à ONU News.
Infraestruturas danificadas deixam famílias sem alternativa
Na conversa, ele explicou que a combinação entre temperaturas extremas e o colapso parcial dos sistemas de eletricidade e aquecimento tem agravado rapidamente a crise humanitária, sobretudo nas grandes cidades.
Segundo Madi, a situação deteriorou-se desde finais de dezembro, com um aumento de ataques a infraestruturas essenciais que provocaram danos significativos nos sistemas de energia e aquecimento.
Em Kyiv, relatou que dois distritos inteiros, onde vivem cerca de 700 mil pessoas, ficaram sem aquecimento e sem eletricidade. As temperaturas nesses locais atingem valores próximos dos -19ºC.
Madi afirmou que “as pessoas não têm qualquer forma de aquecimento dentro dos seus apartamentos”.
Falta de aquecimento central
Em cidades como Kyiv ou Kharkiv, a maioria da população vive em prédios de vários andares, dependentes de sistemas centrais de aquecimento. Essas condições tornam praticamente impossível encontrar soluções individuais quando esses sistemas falham.
Para o representante, a ausência de aquecimento central significa que “as crianças não conseguem ter qualquer calor durante o inverno”. Ele relatou ainda que a crise afeta de forma particularmente severa crianças com deficiência e mobilidade reduzida.
Ao descrever uma visita recente a um centro de reabilitação, Modi contou que muitas crianças já não conseguem deslocar-se por viverem em andares de cima e os elevadores não funcionam devido à falta de eletricidade.
Nesses casos, mães e avós ficam incapazes de transportar as crianças, o que leva ao isolamento total dentro de casa.
Kateryna e seus dois filhos aquecem-se num ponto de aquecimento e usam a eletricidade disponível para carregar os seus aparelhos.
Temperaturas podem descer para 2ºC
De acordo com o responsável, as condições no interior das habitações estão a tornar-se perigosas, com temperaturas que podem descer para 2 ºC ou 3ºC
Ele ressaltou que “isto coloca as crianças em risco elevado do ponto de vista da saúde”. Muitas começam a adoecer e algumas famílias abandonam as cidades, aumentando ainda mais o impacto social e humanitário.
Escolas encerradas e múltiplos riscos para crianças
O chefe de operações de campo do Unicef indicou que as falhas de aquecimento e eletricidade estão também a impedir o funcionamento das escolas.
Com edifícios escolares sem condições mínimas de aquecimento, muitas instituições fecharam, deixando crianças em casa “no frio ou na escuridão”, sem acesso à educação nem perspetiva clara de retorno à normalidade.
Questionado sobre outros riscos enfrentados pelas crianças, Madi afirmou que é difícil identificar apenas um, considerando que “qualquer criança que viva na Ucrânia” está exposta a perigos em várias frentes.
O funcionário falou de riscos de perdas severas de aprendizagem devido ao encerramento das escolas, doenças relacionadas com o frio extremo. Houve um aumento da pressão psicológica, já que muitas crianças vivem em constante medo de ataques e em condições de instabilidade prolongada.
Uma mulher do distrito de Horovan, em Kherson, vive num alojamento sem gasolina
Impacto direto na economia
O responsável sublinhou ainda que os efeitos não se limitam às crianças: os pais enfrentam dificuldades semelhantes, com impacto direto na economia, no trabalho e na estabilidade das famílias.
Segundo ele, a crise intensificou-se desde meados de dezembro e continua a agravar-se, com grande incerteza sobre o final do inverno. Madi alertou que “a primavera não chega na próxima semana, só vem em abril”.
O funcionário do Unicef destacou também a situação de crianças que dependem de equipamentos médicos e energia elétrica para sobreviver, sobretudo aquelas com deficiência severa.
Segundo ele, a agência tem recebido pedidos urgentes para encontrar soluções alternativas de energia, mas reconheceu que “não é simples” e que as necessidades atingiram uma escala “difícil de imaginar”.
Apoio financeiro, proteção infantil e reforço de escolas e serviços
Madi explicou que o Unicef implementa uma resposta de inverno em larga escala, com apoio financeiro direto a famílias vulneráveis. Mais de 200 mil pessoas receberam auxílio em dinheiro, incluindo cerca de 98 mil crianças.
O Unicef também alarga iniciativas de proteção infantil através de uma rede de assistentes sociais e gestores de casos. Os beneficiários são crianças em cuidados alternativos, com deficiência e outras situações de alta vulnerabilidade.
Esse apoio inclui acompanhamento personalizado, apoio psicossocial e, quando necessário, fornecimento de itens essenciais.
Na área da educação, cerca de 1,5 mil escolas receberam subsídios de US$ 10 mil para comprar equipamentos básicos de aquecimento. O objetivo é permitir a reabertura parcial e garantir algum acesso escolar neste inverno.
Sistemas danificados
Além disso, o Unicef apoia empresas públicas de água e aquecimento, fornecendo grandes geradores, materiais de reparação rápida e equipamentos técnicos. A meta é ajudar a restaurar sistemas danificados e manter o abastecimento de água em funcionamento através do apoio a estações de bombagem.
Madi acrescentou que o Unicef aua em cooperação com os serviços de emergência do Estado no apoio aos chamados “pontos de invencibilidade”, locais de aquecimento comunitário. A agência oferece recursos essenciais e equipas de psicólogos para apoiar crianças e famílias.
Outra atividade é a distribuição de soluções energéticas alternativas, como baterias, permitindo que famílias possam carregar dispositivos e ter acesso temporário a calor e eletricidade, ainda que apenas durante algumas horas.
Temperaturas rondam -10C° ou mesmo abaixo
Trabalhadores humanitários continuam no terreno
Madi sublinhou que a crise afeta igualmente os trabalhadores humanitários, incluindo funcionários da ONU e de ONGs, que vivem nas mesmas cidades e enfrentam as mesmas falhas de aquecimento e eletricidade.
Ele afirmou que “ninguém tem aquecimento nem energia”, acrescentando que os próprios colegas do Unicef, incluindo ucranianos, vivem as mesmas dificuldades, com impacto direto nas suas famílias e filhos.
Apesar disso, afirmou que os funcionários continuam a operar e a aprender com “a resiliência e a solidariedade” da população ucraniana.
Como exemplo, relatou uma visita a um local de acolhimento em Kyiv. Lá, uma idosa tinha descido do quinto andar com a neta, Irina, de cinco ou seis anos, apenas para que a criança pudesse ver luz, sentir algum calor e receber apoio psicológico.
Segundo Madi, a anciã reconheceu que subir novamente seria extremamente difícil, mas respondeu que “vale a pena”.
O responsável disse que essa frase resume também o trabalho humanitário no país. Para ele, “vale a pena” permanecer e apoiar as crianças no momento mais difícil.
“As guerras não trazem nada de bom para uma criança”
Kenan Madi encerrou a conversa contando a experiência em vários contextos de guerra que reforçou uma conclusão: “as guerras não trazem nada de bom para uma criança”.
Segundo ele, as consequências são profundas e difíceis de mitigar, independentemente do nível de financiamento ou da resposta humanitária.
O funcionário humanitário defendeu que a prioridade deve ser um futuro de paz para as crianças na Ucrânia e no mundo. Ele acrescentou que, até esse dia chegar, o Unicef continuará a trabalhar para prestar assistência no terreno, mantendo a esperança de “dias melhores” para as famílias afetadas.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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