Dezenas de milhares de pessoas foram mortas e muitas mais deslocadas em Darfur, no Sudão, desde o início dos combates entre as Forças Armadas Sudanesas, SAF, e as Forças de Apoio Rápido, RSF, em abril de 2023.
A afirmação consta de um relatório da Missão Independente de Inquérito que alega que as RSF cometeram assassinatos direcionados etnicamente, violência sexual generalizada e desaparecimentos forçados durante a tomada de El Fasher, na região de Darfur, no final de outubro de 2025, atos que uma Missão Independente de Apuração dos Factos da ONU afirmou apresentarem “características de genocídio” contra as comunidades Zaghawa e Fur, sinalizando um risco contínuo de novas atrocidades.
Missão Independente Internacional
No relatório, divulgado esta quinta-feira, a Missão Independente Internacional de Apuração dos Factos para o Sudão indicou que as provas estabelecem que pelo menos três atos subjacentes de genocídio foram cometidos.
Estes foram: “matar membros de um grupo étnico protegido; causar danos graves ao corpo e à mente; e infligir deliberadamente condições de vida calculadas para provocar a destruição física, no todo ou em parte, do grupo”.
Mohamed Chande Othman, presidente da Missão, afirmou que “a escala, a coordenação e o endosso público da operação por parte da liderança sénior das RSF demonstram que os crimes cometidos em e à volta de El Fasher não foram excessos aleatórios da guerra”. Segundo o responsável, as RSF “fizeram parte de uma operação planeada e organizada que apresenta as características definidoras de um genocídio.”
Famílias deslocadas abrigam-se num centro de acolhimento em El Fasher, no norte de Darfur, em agosto de 2025
‘Características de Genocídio em El Fasher’
A Missão Independente Internacional de Apuração de Factos para o Sudão destacou vários elementos principais que caracterizam os acontecimentos em El Fasher como portadores de “características de genocídio”.
Entre eles, está o cerco de 18 meses imposto deliberadamente, que criou condições de vida calculadas para destruir a população-alvo, ao privá-la sistematicamente de alimentos, água, cuidados médicos e assistência humanitária.
A Missão identificou também um claro padrão de ataques baseados na identidade das vítimas, ligados à etnia, ao género e à filiação política percebida.
“Prova de intenção”
Foram documentadas alegações de assassinatos em massa, violação generalizada e outras formas de violência sexual, detenção arbitrária, tortura e tratamento cruel, extorsão e desaparecimentos forçados.
Além disso, a retórica relatada dos perpetradores, que apelava explicitamente à eliminação de comunidades não árabes, foi citada como “prova de intenção genocida”.
Por fim, a missão emitiu um aviso grave: na ausência de medidas efetivas de prevenção e de responsabilização dos autores, o risco de novos atos genocidas permanece sério e contínuo.
Pessoas que fugiram de El Fasher, em Darfur, recebem ajuda em Tawila, no norte de Darfur
Cerco de 500 dias
As conclusões centram-se nos acontecimentos em e à volta de El Fasher, a capital do Darfur do Norte, durante a tomada pelas RSF no final de outubro de 2025, após um cerco de 18 meses que progressivamente cortou o acesso dos civis a alimentos, água, suprimentos médicos e assistência humanitária.
O relatório afirmou que o cerco “enfraqueceu sistematicamente a população-alvo através da fome, privação, trauma e confinamento”, deixando muitos incapazes de fugir quando o assalto ocorreu.
O conflito no Sudão eclodiu em 15 de abril de 2023, quando começaram os combates entre as SAF e os seus antigos aliados, as paramilitares RSF. Desde então, a guerra espalhou-se por vastas áreas do país, com os civis a sofrerem repetidamente os impactos da guerra urbana, das linhas de frente em movimento e do colapso dos serviços básicos.
A Missão de investigação de factos afirmou que a conduta em El Fasher representou “um agravamento de padrões anteriores” de ataques a outras comunidades não árabes noutros locais do Sudão, “mas numa escala muito mais letal”.
Sobreviventes relatam ameaças
A “intenção genocida”, segundo a missão, foi “a única inferência razoável” a partir do “padrão sistemático de assassinatos direcionados etnicamente, violência sexual, destruição e declarações públicas a apelar explicitamente à eliminação de comunidades não árabes” por parte das RSF.
Sobreviventes relataram que combatentes das RSF disseram: “Há algum Zaghawa entre vocês? Se encontrarmos Zaghawa, matamo-los a todos”; e “Queremos eliminar tudo o que é preto de Darfur”.
Uma integrante da Missão, Mona Rishmawi, ressaltou que a fome, negação de assistência, assassinatos em massa, estupro, tortura e desaparecimento forçado deixa apenas uma inferência razoável; “estas são as características de um genocídio”. Segundo ela, as RSF “agiram com a intenção de destruir, no todo ou em parte, as comunidades Zaghawa e Fur em El Fasher.”
Os Zaghawa e os Fur estão entre as maiores comunidades étnicas não árabes na região ocidental de Darfur, no Sudão. Ambos os grupos enfrentaram historicamente discriminação e foram fortemente visados durante ondas anteriores de violência em Darfur, a partir do início dos anos 2000.
Caminhões carregados com ajuda humanitária a caminho para entregar suprimentos a El Fasher, Darfur
Sem ação apesar de muitos avisos
O relatório descreve os ataques baseados na identidade, ligados à etnia, género e filiação política percebida, como elemento central da operação, incluindo o ataque seletivo a mulheres e raparigas Zaghawa e Fur durante a violência sexual, enquanto mulheres percebidas como árabes eram frequentemente poupadas.
A Missão destacou também avisos repetidos e “indicadores claros de risco de atrocidades” antes da tomada, incluindo apelos internacionais a partir de meados de 2024 para o fim do cerco e a proteção dos civis. Apesar destes avisos, “nenhuma medida efetiva foi tomada por qualquer parte para proteger a população civil”.
Com o conflito a expandir-se para outras regiões, incluindo Cordofão, a Missão alertou que a proteção urgente de civis é necessária “agora mais do que nunca”. Joy Ngozi Ezeilo, outra integrante da Missão, afirmou que a conduta em El Fasher foi “uma manifestação aguda de padrões consistentes com violência genocida”.
Responsabilizar os perpetradores
Na ausência de prevenção e responsabilização efetivas, a missão avaliou que “o risco de atos genocidas adicionais permanece sério e contínuo”.
Ohtman declarou que “os perpetradores em todos os níveis de autoridade devem ser responsabilizados”, sublinhando que quando as provas indicam genocídio, “a comunidade internacional tem uma obrigação acrescida de prevenir, proteger e garantir que a justiça seja feita.”
A missão de investigação de factos foi estabelecida pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em outubro de 2023 e tem o mandato de investigar alegadas violações de direitos humanos e do direito internacional humanitário no conflito, incluindo identificar, quando possível, os responsáveis.
O relatório será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em 26 de fevereiro de 2026.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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