A portuguesa Helena Reys Santos tinha 17 anos quando decidiu entrar na Escola Naval. Na altura, no final dos anos 90, poucas mulheres escolhiam a carreira militar.
“As minhas amigas todas queriam ser a namorada do Maverick e eu queria ser o Maverick”, recorda hoje a capitão-de-fragata, lembrando a referência ao filme Top Gun que marcou a geração.
Uma oportunidade de carreira
A decisão também foi prática. Os pais não tinham possibilidade de pagar um curso universitário e a Marinha oferecia a oportunidade de estudar e, ao mesmo tempo, seguir uma carreira.
Apesar da oportunidade, Helena explica, em entrevista à ONU News, que não teve o apoio da família. “A minha família sempre achou que eu era muito pequenina – eu tenho 1,60m – sempre acharam que eu não tinha o estofo para aquilo”.
Quase três décadas depois, Helena Reys Santos soma missões internacionais, participou em operações contra a pirataria na Somália, no Mar do Norte em plena epidemia Covid-19 e mesmo antes do conflito entre a Rússia e Ucrânia. Ela integrou ainda uma missão das Nações Unidas na Colômbia.
Entrar num mundo de homens
Mas entrar num universo dominado por homens nunca foi simples.
“É sempre muito difícil entrar num mundo em que é dominantemente masculino, até porque existe uma forma de pensar, existe uma cultura”.
Num dos primeiros episódios da carreira, um subordinado recusou-se a aceitar as suas ordens.
“Fui a primeira artilheira da Marinha e lembro-me que tive um cabo em particular que me disse que eu não aceito ordens de mulheres e, então, não falava comigo.”
Quando as mulheres fazem diferença
Ao longo das missões internacionais, Helena Reys Santos percebeu como a presença de mulheres pode ser decisiva em operações de paz ou em contextos de crise.
Numa missão relacionada com refugiados na área de Kosovo, nos Balcãs, os militares perceberam rapidamente que as mulheres refugiadas não tinham acesso a cuidados médicos porque não estavam autorizadas a falar com os militares no teatro de operações.
Helena Reys Santos foi nomeada como observadora internacional da ONU na Colômbia
Mais eficácia operacional
A solução foi enviar médicas e enfermeiras militares. A militar garante que o impacto foi imediato.
“Além das mulheres começarem a ter acesso a cuidados médicos e aos seus filhos também, começámos a obter familiarização do que é que se estava a passar efetivamente no teatro de operações”.
Para a capitão-de-fragata, estes episódios mostram que a participação feminina nas forças de paz não é apenas uma questão de representação, mas também de eficácia operacional.
“As mulheres, contra tudo aquilo que se poderia dizer, que não pertencem à linha da frente ou às operações, acabamos por ter uma entrada mais calma e mais acessível ao teatro de operações e é fundamental”.
A missão da vida na Colômbia
Entre todas as experiências, a missão enquanto observadora das Nações Unidas na Colômbia ocupa um lugar especial na carreira de Helena Reys.
“Foi a missão da minha vida, foi realmente fantástico porque tive a oportunidade de participar em projetos-piloto, no âmbito da perspetiva de género, fazer diferença na vida de pessoas”.
Soluções simples
No país sul-americano, trabalhou na reintegração social de ex-combatentes das Farc, onde quase 40% dos antigos guerrilheiros eram mulheres. Nos seminários de formação e empreendedorismo, muitas participantes tinham de levar os filhos para as sessões.
A solução passou por algo simples: contratar babysitters para cuidar das crianças enquanto as mães participavam nas formações. “Foi aí que eu percebi que muitas vezes gostamos muito de falar da igualdade, mas nem sempre geramos a mesma oportunidade”.
A Capitão-de-fragata tem dois filhos
Entre a missão e a família
As missões também têm um custo pessoal. Quando partiu para a Somália, a primeira filha tinha apenas um ano. “Custou-me imenso, imenso, enquanto mãe”, admite.
Quem ficou a cuidar da criança foi o marido, algo que também revelou preconceitos sociais.
“Eles também sofrem o bullying da perspetiva de género, quando têm que assumir uma posição enquanto cuidadores”.
Histórias que inspiraram um livro
A história de Helena Reys Santos é uma das que integram um livro que reúne testemunhos de portuguesas em missões de paz, da autoria de Margarida Pereira-Müller e Cidália de Vargas Pecegueiro, com lançamento marcado para terça-feira, 10 de março, em Lisboa.
A ideia nasceu da constatação de que estas histórias raramente aparecem na narrativa tradicional da guerra ou da paz. “A história da guerra tem sido contada quase exclusivamente sob uma perspetiva masculina”, sublinham as autoras.
“Riram-se de mim e disseram: mulheres militares não”
Margarida Pereira-Müller conhece bem essa ausência. Cresceu numa família de militares e chegou a tentar entrar na Academia Militar logo após o 25 de Abril, que derrubou a ditadura do Estado Novo em Portugal, mas foi desencorajada. “Riram-se de mim e disseram: mulheres militares não”.
Décadas mais tarde, percebeu que muitas portuguesas já participavam em missões de paz, mas continuavam praticamente invisíveis como explicou à ONU News.
“Comecei a ver que havia muitas mulheres que estavam em missões de paz e que nunca se falava delas e que têm um papel muito importante”.
O livro reúne testemunhos de militares e membros das forças de segurança portuguesas que participaram nestas missões, procurando olhar para essas experiências também a partir da perspetiva de género.
Um papel que os homens nem sempre conseguem desempenhar
Segundo Cidália de Vargas Pecegueiro, há situações em que a presença feminina é decisiva.
“As mulheres nas missões de paz têm um papel que os homens não conseguem ter, ou seja, têm um papel específico pela sua condição de mulheres”.
Em muitas sociedades, explica, as mulheres locais sentem-se mais confortáveis a falar com militares do mesmo género. Isso pode fazer toda a diferença em operações humanitárias ou de reconstrução.
Inspirar as próximas gerações
Mais do que contar histórias, as autoras esperam que o livro ajude a abrir caminhos.
Para Margarida Pereira-Müller o desejo é conseguir chegar às escolas para que estas mulheres sirvam de exemplo às crianças, às meninas e às adolescentes que estão ainda a pensar no seu futuro”.
Cidália de Vargas Pecegueiro acrescenta que “se conseguirmos que estes exemplos estimulem mais raparigas a inscreverem-se nas forças de segurança e nas Forças Armadas, acho que já fizemos um bom trabalho”.
Um número ainda pequeno
Apesar da evolução nas últimas décadas, as mulheres continuam em minoria nas Forças Armadas portuguesas, representando 13,8% do efetivo.
O número tem vindo a crescer lentamente mas a presença feminina continua a ser residual nos cargos de decisão, onde nem sequer chega aos 2%.
*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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