A cada dia, o surto de ebola na República Democrática do Congo, RD Congo, assume proporções mais alarmantes. A Organização Mundial da Saúde, OMS, alerta para uma velocidade de contágio “única”, que ameaça ultrapassar fronteiras.
No terreno, a resposta humanitária esbarra em regiões de difícil acesso, na complexidade das grandes áreas urbanas e na insegurança local. O vírus deixou as minas de ouro para trás e invadiu grandes centros, atingindo Ituri, Kivu do Norte, Kisangani e Haut-Uele.
Capacidade de resposta precisa ser reinventada
Não se enfrenta apenas um vírus grave, mas uma propagação em escala nunca vista. Para salvar vidas, a capacidade de resposta precisa ser reinventada, relata Anne Ancia, representante da OMS na RD Congo.
OMS e os parceiros internacionais reconhecem que a resposta precisa ser holística e participativa
“A velocidade deste surto é única, realmente única. Por exemplo, os outros surtos do vírus ebola bundibugyo eram pequenos e se disseminaram nessa velocidade. Mas isso significa que temos, nós os parceiros que estão a responder, que aumentar a nossa capacidade. Talvez três vezes mais rápido, com muito mais pessoas e avançar muito mais rápido com o trabalho com a comunidade, informá-las e trabalhar com elas”.
A médica defende que o verdadeiro retrato da crise ganha contornos ainda mais cruéis quando se observa o cotidiano das populações afetadas. Para essas famílias, o ebola é apenas uma entre várias ameaças de morte.
Frear o surto é prioridade
Em comunidades onde falta água potável e a fome é constante, a malária, o HIV, a tuberculose e o colapso da saúde materno-infantil não são exceções, mas viram a dura realidade.
“Discutimos isso hoje com o Ministério da Saúde e com muitos parceiros: como realmente fazer uma resposta ao ebola, mas também todos os outros serviços de saúde que necessitam a população e os outros itens básicos de água, de alimentação, da educação que a população tem que receber. Porque realmente, às vezes, a população diz, ‘não, não é ebola a nossa preocupação’. Não é realmente. É fazer uma resposta holística e não só de ebola, mas também o trabalho que nós fizemos muito que é sensibilização da população.”
Travar a expansão geográfica do ebola exige acelerar o envio de recursos
Em uma visita feita nos últimos dias a um recém-criado centro de tratamento na área congolesa de Lita, Anne Ancia testemunhou o reflexo dessa vulnerabilidade generalizada com a morte de uma jovem mãe no parto de gêmeos.
Sem acesso a uma intervenção cirúrgica a tempo para o nascimento do segundo bebê, ela faleceu de anemia grave. Casos similares ilustram que focar somente em controlar o vírus pode ser apenas um dos cuidados diários aos que tentam sobreviver.
Para a população local, além de frear o surto a prioridade é o acesso a serviços essenciais. Sem esses itens básicos, a confiança da comunidade se perde e o combate à epidemia se torna inviável.
Desconfiança, violência e apropriação comunitária
Ancia relata uma das mais recentes tensões na relação com as comunidades que teve efeitos para muitos habitantes.
“Há muitas pessoas jovens que estão a queimar os nossos centros de tratamento. Há um lugar muito estratégico neste momento que se chama Nia Nia, onde a MSF, Médicos Sem Fronteiras, começou um centro de tratamento e foi queimado pela população jovem. E porque esse centro foi queimado, a população que estava lá dentro do centro saiu para uma outra província, Kisangani, e foi assim que essa província foi afetada. E saiu também para o norte, para Haut-Uele.”
Ebola exige acelerar o envio de recursos e expandir a presença de equipes de saúde
Com esse cenário, a conclusão tem sido que estratégias estritamente técnicas e impositivas não trarão a solução. A OMS e os parceiros internacionais reconhecem que a resposta precisa ser holística e participativa.
Líderes comunitários devem se juntar ao planejamento das ações, garantindo que as diretrizes sanitárias respeitem as tradições e percepções locais.
Encontrar o ponto de equilíbrio
Um dos maiores desafios são rituais fúnebres, os momentos de grande contágio devido ao contato físico com os mortos.
A resposta exige soluções aliando rigorosa proteção biológica ao respeito à dignidade e aos ritos das famílias. É necessário encontrar o ponto de equilíbrio entre a ciência que protege e o luto que humaniza, segundo Anne Ancia.
A especialista conta que travar a expansão geográfica do ebola exige acelerar o envio de recursos, expandir a presença de equipes de saúde para além dos centros urbanos e garantir um financiamento contínuo e ágil.
Trabalhando de mãos dadas com a população
A resposta internacional mobilizou-se, mas o tempo necessário para que o financiamento seja traduzido em estruturas no terreno ainda é um grande obstáculo.
Congoleses enfrentam falta de água, fome crônica e colapso da saúde em meio a doenças graves retratando esta crise
Para a médica, não se trata de contenção de danos, mas de salvar vidas e preservar a dignidade humana. A ação do governo, da OMS e dos parceiros humanitários é a corrida contra o tempo, na qual o sucesso depende do engajamento direto de cada aldeia, líder e família.
Para Anne Ancia, somente trabalhando de mãos dadas com a população será possível frear o avanço do atual surto e construir um caminho sustentável para a esperança.
Oficialmente, até quarta-feira, foram contabilizados 4.449 casos confirmados e 2.063 mortes de ebola registrados em cinco províncias e 53 zonas de saúde congolesas.
*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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