Nas Forças Armadas do México, uma ordem de um superior deve ser obedecida sem questionamentos. Para muitas mulheres fardadas, isso pode incluir a ordem de entrar no quarto de um oficial homem.

E aí começam muitos problemas que acabam por sair da esfera militar. A constatação é da jornalista investigativa Zorayda Gallegos, vencedora do Prêmio Breach/Valdez de Jornalismo e Direitos Humanos de 2026.

Alto preço a pagar para imprensa livre

A repórter conta que se um oficial militar exige que uma colega vá aos aposentos dele e existe uma recusa, a militar estaria desobedecendo a uma ordem de seu superior.

A investigação sobre violência sexual no meio militar tornou Gallegos um alvo, em um dos países mais perigosos do mundo para se exercer a profissão de jornalista.

O relato, divulgado às vésperas do Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, marcado neste 2 de novembro, demonstra tanto a importância de uma imprensa livre quanto o alto preço que ela pode cobrar.

A reportagem, intitulada “Violência sexual nos quartéis: um raio-X da impunidade”, acompanhou mais de 520 mulheres que denunciaram crimes de natureza sexual ao longo de um período de 12 anos.

© Unfccc/Kiara Worth
Atos de intimidação contra jornalistas envolvem assassinatos, agressão e sequestros

Vítimas desencorajadas a denunciar

Apenas 3% desses casos resultaram em condenação. Os outros 97% não levaram a nenhuma sanção efetiva.

Este não é um problema isolado, diz a jornalista e autora, mas sim uma questão estrutural que vai além dos quartéis, alcançando escolas e hospitais militares.

Zorayda Gallegos também documentou como oficiais de alto escalão encobrem abusos, e como a desigualdade de gênero e os obstáculos institucionais desencorajam as vítimas a registrar denúncias.

Para ela, parte do problema começa no próprio treinamento militar, que descreve como “um sistema altamente hierarquizado, de cima para baixo, no qual as mulheres são sempre ensinadas a seguir ordens de seus superiores”.

Isso deixa as militares vulneráveis ​​justamente aos oficiais a quem elas estão subordinadas.

O sexismo profundamente enraizado agrava a situação, influenciando a distribuição de funções e as promoções. As militares são frequentemente designadas para tarefas associadas ao “cuidado e à enfermagem, embora estejam qualificadas para cargos de nível mais elevado”, explica.

Perdoar, esquecer, seguir em frente

Mulheres que conseguem levar seus casos à justiça correm o risco de serem vitimizadas novamente. A jornalista diz que algumas decisões judiciais contêm comentários sexistas ou carecem de qualquer perspectiva de gênero.

Dentro da instituição, o apoio psicológico oferecido às denunciantes é voltado a levá-las a perdoar seus agressores, esquecer o que aconteceu e continuar com suas carreiras militares.

Já os homens acusados, muitas vezes, recebem apenas recomendações em vez de punições — “esse é o limite máximo”, segundo a investigadora.

Para romper o ciclo de silêncio e impunidade, ela acredita ser necessária uma maior presença de mulheres em cargos de alta liderança militar e de tomada de decisão, bem como no sistema judiciário e no Ministério Público do México.

Verdades incômodas

Expor tudo isso teve um custo pessoal. A jornalista enfrentou comentários intimidadores, ameaças veladas e pressões por causa de seu trabalho.

Ela continua defendendo o direito de publicar informações de interesse público, bem como de realizar reportagens de forma independente e imparcial.

No México, isso exige coragem. A Organização das Nações Unidas para  Educação, Ciência e Cultura, Unesco, aponta frequentemente o país como um dos mais letais do mundo para a imprensa, embora não esteja oficialmente em guerra.

O conluio entre o crime organizado e as autoridades locais representa uma grave ameaça aos repórteres, e seus efeitos são sentidos em todos os níveis do sistema judiciário. Jornalistas que investigam política ou criminalidade enfrentam ameaças, sequestros, desaparecimentos forçados e assassinatos; muitos são forçados a fugir para o exterior.

Uma profissão mortal

Segundo a Unesco, que monitora as ameaças contra profissionais da mídia em todo o mundo, 154 jornalistas foram assassinados no México nos últimos 20 anos.

A organização confirmou que, até o momento em 2026, oito jornalistas foram assassinados no México.

Grupos de defesa da liberdade de imprensa, incluindo a Artigo 19 e a Repórteres Sem Fronteiras, RSF, contabilizam nove vítimas, após o assassinato de Hamurabi Huesca Manzano em Oaxaca, em 9 de outubro.

O prêmio que Zorayda Gallegos recebeu leva os nomes de duas dessas vítimas. Miroslava Breach e Javier Valdez foram assassinados por causa de seu trabalho.

“Eles sempre defenderam um jornalismo corajoso, enraizado em suas comunidades e comprometido em revelar verdades incômodas. Até que isso lhes custou a vida. Isso jamais deveria ter acontecido”, disse ela.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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