A fome global diminuiu pelo terceiro ano consecutivo em 2025. No entanto, as melhorias continuam frágeis, insuficientes e distribuídas de forma desigual entre os Estados, comprometendo o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS, até 2030.

As conclusões constam do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026”, Sofi, divulgado por cinco agências especializadas das Nações Unidas nesta terça-feira, 21 de julho.

Melhoria lenta, mas sustentada

O relatório revela que a proporção da população mundial em situação de fome diminuiu para 7,8% em 2025, face a 8,1% em 2024 e 8,6% em 2022, refletindo um progresso contínuo, ainda que aquém das metas estabelecidas pelos Estados.

Em termos absolutos, estes valores correspondem a cerca de 645 milhões de pessoas afetadas em 2025, menos 14 milhões do que no ano anterior e menos 43 milhões do que em 2022.

Entre 2023 e 2025, a prevalência da desnutrição nos países lusófonos ilustra diferenças significativas: São Tomé e Príncipe regista o valor mais alto, com 23% seguido por Moçambique com 22,3%.

Já Guiné-Bissau apresenta 20%, seguido por Angola 17,45%, Timor-Leste 16,9% e Cabo Verde com 8,1%. Já no Brasil e em Portugal, os valores situam-se abaixo de 2,5%.

Apesar dos progressos globais, a recuperação permanece desigual entre regiões. No seu conjunto, a Ásia, a América Latina e o Caribe registaram melhorias constantes nos últimos anos. África concentra o maior número absoluto de pessoas com fome, num contexto de rápido crescimento populacional.

WFP Video
Uma criança sudanesa no campo de refugiados de Dali, em Tawila, Darfur. Sua família fugiu de El Fasher, onde a fome generalizada foi confirmada em outubro de 2025

Um quarto da população enfrenta insegurança alimentar

A publicação indica que 25,8% da população mundial enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave em 2025, o que corresponde a cerca de 2,1 mil milhões de pessoas.

Apesar da redução face a 27,1% em 2024 e 28,7% em 2020, equivalente a menos cerca de 86 milhões de pessoas do que em 2024 e menos 135 milhões do que em 2020, os níveis mantêm-se acima dos registados antes da pandemia.

As disparidades regionais continuam marcantes. Mais de metade da população africana, ou 56,6% enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave em 2025. Na Ásia foram 20,3%, na América Latina e Caribe 22,9%, e na América do Norte e Europa 8,7%.

A insegurança alimentar é mais prevalente em zonas rurais do que em zonas urbanas. Embora a diferença entre géneros tenha diminuído ligeiramente em 2025, as mulheres são desproporcionalmente afetadas.

Desnutrição materna e infantil permanece elevada

O relatório destaca que o progresso global na nutrição materna e infantil permanece insuficiente para cumprir os compromissos internacionais, incluindo as metas de 2030.

Os casos globais de anemia entre mulheres dos 15 aos 49 anos estão a aumentar, enquanto a obesidade adulta continua a crescer a nível global. 

Por sua vez, apenas 30,8% das crianças entre os 6 e os 23 meses consomem uma dieta minimamente diversificada, e 150 milhões de crianças com menos de cinco anos continuam com atraso de crescimento.

Para a diretora executiva do Fundo da ONU para a Infância, Unicef, Catherine Russell o relatório é um alerta claro de que os sistemas alimentares continuam sem dar resposta às necessidades de milhões de crianças e mulheres em todo o mundo.

ERR-Taweela
Corte de ajuda levou a aumento da insegurança alimentar

A dieta mais saudável é mais cara

A publicação nota que o custo associado a uma dieta saudável, capaz de cumprir as necessidades energéticas e os requisitos nutricionais recomendados, também tem vindo a aumentar nos últimos anos.

Em 2025, o custo médio global de uma dieta saudável aumentou para US$ 4,28 em paridade do poder de compra por pessoa por dia, face a US$ 3,44 em 2021.

Apesar do aumento dos preços, o número de pessoas incapazes de pagar uma dieta saudável diminuiu, de 2,97 mil milhões, ou 37,4% da população mundial em 2021, para 2,69 bilhões, ou 32,7% de habitantes, em 2025.

No entanto, esta tendência esconde grandes desigualdades regionais. Em África, a acessibilidade piorou de forma significativa, com 66,6% da população incapaz de pagar uma dieta saudável em 2025. Este valor é mais do dobro dos níveis observados na Ásia e na América Latina e no Caribe.

Conflitos impulsionam crise alimentar

O relatório anual apresenta projeções atualizadas da fome para os próximos cinco anos, à luz do conflito no Médio Oriente. Dependendo da duração do impacto da crise na inflação alimentar, o documento estima que entre 510 e 520 milhões de pessoas poderão ainda enfrentar fome em 2030.

No entanto, outros potenciais fatores perturbadores, incluindo episódios climáticos extremos como o El Niño em 2026 e 2027, não são considerados nestas projeções, pelo que poderão traduzir-se num agravamento da insegurança alimentar.

Para o diretor da FAO, Qu Dongyu, as crises recentes, incluindo conflitos e choques globais, comprovaram a resiliência dos sistemas agroalimentares e a necessidade de os reforçar para servir melhor as populações mais vulneráveis, agricultores e consumidores.

*O Sofi é a principal publicação que avalia o progresso mundial no combate à fome, produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, FAO, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Fida, o Fundo da ONU para a Infância, Unicef, o Programa Alimentar Mundial, WFP, e a Organização Mundial da Saúde, OMS.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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