Caros amigos,

Todo o protocolo observado.

Muito obrigado pela vossa calorosa receção e, Michael Bloomberg, obrigado pelas suas palavras amáveis, e pela sua liderança duradoura e extraordinária na ação climática.

Está a ajudar a transformar ambição em progresso real para as pessoas e para o planeta.

Muitro obrigado pela sua voz forte e estou grato pelo compromisso e pela defesa de tantos diferentes líderes aqui presentes hoje, começando pelo nosso presidente da câmara.

Caros amigos,

A crise traz clareza.

E aqui em Londres, a cidade de Dickens, é claro que o nosso mundo enfrenta um “Conto de Duas Crises”.

Uma crise climática que nos empurra cada vez mais para temperaturas mais elevadas e mais perto de pontos de rutura catastróficos.

E uma crise energética que expõe a insensatez de um mundo dependente de hidrocarbonetos.

A inteligência artificial pode acelerar soluções climáticas. Pode ajudar a curar doenças, transformar a educação e permitir à humanidade enfrentar desafios antes considerados fora do nosso alcance. Devemos aproveitar esse potencial. Mas a IA também exige grandes quantidades de terra, água e energia. Os centros de dados que a suportam já consomem mais eletricidade do que a maioria dos países.

 

À superfície, estas crises podem parecer distintas.

Mas partilham a mesma origem destrutiva:

Os combustíveis fósseis.

E exigem a mesma resposta:

Uma transição rápida e justa para energias limpas – e um reforço da adaptação, da resiliência e da justiça climática para aqueles que já enfrentam os impactos das alterações climáticas.

Caros amigos,

Crise número 1: o caos climático está a acelerar diante dos nossos olhos.

Acabámos de viver os onze anos mais quentes alguma vez registados.

E hoje esta cidade, e muito além dela, está a viver o dia mais quente do ano, com temperaturas ainda mais elevadas por vir.

Londres não está apenas a chamar a atenção, está a ferver.

Em todo o mundo, os desastres climáticos estão a tornar-se mais frequentes, mais destrutivos e mais dispendiosos.

E a Organização Meteorológica Mundial alertou que ainda não vimos nada.

O El Niño não está apenas a bater à porta. Corre o risco de deitar a casa abaixo.

Aumentando o calor. Perturbando os sistemas alimentares e hídricos. E atingindo mais duramente os mais vulneráveis.

Há dez anos, os líderes mundiais acordaram em Paris limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus Celsius.

Agora, os cientistas afirmam que as temperaturas médias anuais irão ultrapassar esse limiar nos próximos anos.

A tarefa que temos pela frente é limitar rigorosamente esse excesso, reduzir a sua duração e fazer descer as temperaturas abaixo de 1,5 graus Celsius o mais rapidamente possível.

Cada fração de grau conta.

Cada momento conta.

Porque quanto maior e mais prolongado for esse excesso, maior será o risco de ultrapassar pontos de rutura planetários que desencadeiam mudanças irreversíveis.

Hoje, o Conselho Científico Consultivo das Nações Unidas está a divulgar um relatório sobre o que isso significaria exatamente.

Sistemas de recifes de coral empurrados para o colapso.

A perda acelerada das calotes de gelo na Gronelândia e na Antártida Ocidental – provocando a subida do nível do mar que transformaria as zonas costeiras, deslocaria milhões de pessoas e ameaçaria a existência de alguns países insulares.

A transição é inevitável. E quero sublinhar que as energias limpas não podem ser construídas com base em práticas prejudiciais. Uma transição justa significa que os países e as comunidades cujas terras contêm os minerais críticos para o futuro da energia limpa devem beneficiar plenamente dela.

O enfraquecimento dos principais sistemas de circulação oceânica que regulam o clima e a precipitação.

E partes da floresta amazónica a evoluírem para condições semelhantes às da savana.

Caros amigos,

Os pontos de rutura da Terra são como objetos no espelho retrovisor de um automóvel:

Estão muito mais próximos do que parecem.

Ao mesmo tempo, enfrentamos uma segunda crise.

O conflito no Médio Oriente desencadeou a mãe de todos os choques energéticos.

A Agência Internacional de Energia indica que a sua escala rivaliza com as convulsões petrolíferas da década de 1970… e com a turbulência que se seguiu à invasão russa da Ucrânia. Em conjunto.

Para muitos países em desenvolvimento, isto não é apenas uma crise energética.

É um choque da dívida. Um choque alimentar. Um choque de desenvolvimento.

E acrescentaria que qualquer acordo de paz é bem‑vindo e traria o tão necessário alívio, mas – não haja dúvidas – os impactos serão provavelmente duradouros.

Caros amigos,

Estas crises gémeas voltaram a expor os limites de um modelo de desenvolvimento ultrapassado.

Um modelo movido a combustíveis fósseis – em que um único conflito pode perturbar o abastecimento energético global e um único ponto crítico pode fazer disparar os preços.

Um modelo que trata a natureza como ilimitada – para ser consumida sem consequências.

Um modelo que criou enorme riqueza mas também aprofundou as desigualdades e alimentou a insegurança.

Um modelo em que aqueles que menos contribuíram para estas crises pagam o preço mais elevado.

A lição é clara: este modelo não tem futuro.

A comunidade internacional reconheceu os seus limites quando adotou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O mundo não pode voltar atrás.

Não podemos insistir num sistema assente em combustíveis fósseis que está a impulsionar tanto a crise climática como a crise energética.

O que precisamos, com urgência, é da vontade de implementar plenamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

E com um foco especial no sector que está na raiz das duas crises que o nosso mundo enfrenta… e onde se podem alcançar ganhos mais imediatos – carvão, petróleo e gás. Apelo à indústria dos combustíveis fósseis para que assuma responsabilidades e faça o que há muito está em falta.

Alinhar prosperidade com resiliência.

Crescimento com sustentabilidade.

E oportunidade com justiça.

A boa notícia é que – ao contrário de todas as crises energéticas do passado – temos agora uma saída clara.

Uma saída limpa.

As energias renováveis são a fonte mais barata, mais rápida e mais escalável de nova eletricidade na maior parte do mundo.

Desde 2010, o custo da energia solar caiu quase 90%, o da eólica terrestre mais de 70% e o armazenamento em baterias 95%.

No ano passado, a energia eólica e solar ultrapassaram todo o crescimento da procura de nova eletricidade a nível mundial.

A energia solar registou o maior aumento anual de sempre de qualquer fonte de eletricidade.

Mais de 90% da nova capacidade renovável instalada em todo o mundo já é mais barata do que as alternativas de combustíveis fósseis de menor custo.

Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis, a capacidade renovável existente poupou à economia mundial 480 mil milhões de dólares em custos evitados com combustíveis fósseis só em 2025.

E as energias renováveis evitaram emissões de dióxido de carbono anuais superiores às dos EUA, da UE e do Japão, em conjunto.

Entretanto, o investimento em energias limpas está a atrair quase o dobro do investimento em combustíveis fósseis.

Grande parte deste dinamismo vem de países importadores de combustíveis fósseis determinados a libertar-se de mercados energéticos instáveis e imprevisíveis.

Eles compreendem uma verdade essencial:

Cada unidade de energia que um país produz para si próprio é uma unidade a menos que tem de comprar num mercado que não controla… por uma rota que não pode proteger… a um preço definido por acontecimentos que não escolheu.

Não há embargos sobre a luz solar nem bloqueios ao vento.

Caros amigos,

O veredito é claro:

A independência energética não pode ser construída sobre a dependência de combustíveis fósseis.

As energias renováveis são a pedra angular de uma verdadeira segurança energética.

A eletrificação dos transportes, dos edifícios e da indústria é uma das formas mais rápidas de reduzir emissões e quebrar a dependência de combustíveis fósseis importados.

Quanto mais as economias funcionarem com eletricidade limpa, mais seguras, resilientes e competitivas se tornam.

Então, como fazemos uma rutura limpa?

Permitam-me apontar sete passos.

Primeiro, devemos agir com muito maior urgência para limitar rigorosamente a magnitude e a duração de qualquer excesso acima de 1,5 graus.

A ciência traçou um roteiro claro:

As emissões devem atingir o pico imediatamente… cair acentuadamente nesta década… e alcançar a neutralidade carbónica global até 2050.

No entanto, o mundo continua perigosamente fora de rumo.

Os mais recentes planos climáticos nacionais reduziriam as emissões globais em apenas 10% até 2035.

A ciência diz-nos que as emissões têm de cair 60% no mesmo período para manter o objetivo de 1,5 ao alcance.

O G20 – responsável por cerca de 80% das emissões globais – tem de liderar.

O princípio das Responsabilidades Comuns mas Diferenciadas aplica-se, mas todos os grandes emissores devem fazer muito mais.

E todos os países devem ir além dos compromissos assumidos.

Acelerando a transição dos combustíveis fósseis para as energias limpas – como os governos se comprometeram na Conferência das Nações Unidas sobre o Clima de 2023.

Travando a desflorestação e restaurando a natureza.

E reduzindo rapidamente as emissões de dióxido de carbono provenientes da produção e consumo de carvão, petróleo e gás.

O CO₂ continua a ser o principal motor do aquecimento a longo prazo.

Mas chegou também o momento de dar prioridade à redução do metano.

O metano é responsável por cerca de um terço do aquecimento global.

É cerca de oitenta vezes mais potente do que o dióxido de carbono.

Mas, ao contrário do CO₂, o metano decompõe-se na atmosfera ao fim de uma ou duas décadas.

Isso significa que reduções ambiciosas podem produzir um alívio visível das temperaturas no prazo de uma geração.

É por isso que hoje lanço um Apelo Global à Ação sobre o Metano.

Este incide sobre três sectores.

O sector dos resíduos — incluindo medidas decisivas para reduzir o desperdício alimentar, pôr fim à deposição a céu aberto e capturar emissões de aterros e de águas residuais.

O sector da agricultura — reduzindo as emissões com soluções comprovadas para reforçar a segurança alimentar e proteger os meios de subsistência dos agricultores.

E com um foco especial no sector que está na raiz das duas crises que o nosso mundo enfrenta… e onde se podem alcançar ganhos mais imediatos – carvão, petróleo e gás.

Apelo à indústria dos combustíveis fósseis para que assuma responsabilidades e faça o que há muito está em falta.

A Agência Internacional de Energia concluiu que cerca de 70% das emissões de metano do petróleo e do gás podem ser eliminadas com tecnologia existente – grande parte dela com baixo ou nenhum custo líquido.

No entanto, só em 2025, cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás foram queimados na atmosfera – tanto quanto África consome num ano.

O Sistema de Alerta e Resposta ao Metano do Programa das Nações Unidas para o Ambiente emitiu mais de 5.000 alertas em 33 países.

Ainda assim, a taxa de resposta global situa-se em apenas 12%.

É por isso que a ação voluntária já não é suficiente.

O mundo eliminou a gasolina com chumbo.

Eliminámos as substâncias que destroem a camada de ozono.

A poluição por metano tem de ser a próxima.

Apelo tanto aos governos produtores como consumidores para que estabeleçam uma nova norma global para o sector do petróleo e do gás: emissões de metano próximas de zero ao longo de toda a cadeia de valor.

Segundo, devemos enfrentar a atual crise energética sem aprofundar a dependência dos combustíveis que a alimentam.

Em todo o mundo, vozes influentes continuam a insistir em mais minas de carvão, mais campos petrolíferos, mais expansão do gás.

Isto numa altura em que o mundo nem sequer conseguirá utilizar todos os combustíveis fósseis já disponíveis – quanto mais apostar em novos abastecimentos e infraestruturas que correm o risco de se tornarem obsoletos muito antes do fim da sua vida económica.

E sejamos claros: não serão apenas ativos a ficar encalhados — serão economias inteiras.

O motor de crescimento de hoje e de amanhã funciona com energia limpa.

Compreendo o impulso, especialmente em períodos de turbulência, de nos agarrarmos ao que nos é familiar.

A promessa de “negócios como de costume” pode soar reconfortante para alguns.

Mas significa pagar mais por menos segurança.

Significa ceder a outros as indústrias e os empregos do século XXI – enquanto o risco aumenta internamente.

Isto não é liderança. É recuo.

E devemos ser igualmente claros sobre quem suporta o custo:

Os trabalhadores.

As famílias que sentem a pressão com contas mais elevadas, maior incerteza, a sensação de que o sistema não está a funcionar para elas — enquanto os gigantes dos combustíveis fósseis continuam a obter lucros extraordinários.

As oito maiores empresas de combustíveis fósseis registaram ganhos adicionais de 6,5 mil milhões de dólares apenas no primeiro trimestre deste ano – e isso inclui apenas um mês da crise no Médio Oriente, à medida que os preços do petróleo continuavam a subir e os lucros a aumentar.

São ganhos extraordinários nascidos da dor – da instabilidade, das dificuldades e da dependência.

Apelo aos governos para que os tributem.

E apelo para que utilizem essas receitas onde elas devem estar: apoiar famílias e comunidades vulneráveis e acelerar a transição para energia limpa e acessível.

Mas remover subsídios e incentivos prejudiciais não é suficiente. Devemos também eliminar os obstáculos estruturais que travam os projetos de energia limpa.

Demasiadas vezes, estes limitam-se a esperar – por vezes durante anos – para se ligarem à rede.

As infraestruturas de transporte são insuficientes.

Os sistemas de distribuição estão desatualizados.

O armazenamento está atrasado.

Os sistemas digitais ainda não são suficientemente inteligentes nem flexíveis.

E as interligações regionais e inter-regionais continuam demasiado limitadas.

Se levarmos a transição a sério, devemos tratar as redes como infraestruturas estratégicas.

A era da eletrificação exigirá uma expansão massiva das redes, do armazenamento e da flexibilidade dos sistemas.

E precisamos de regras adequadas ao século XXI.

Os governos devem criar condições para o investimento – com planeamento modernizado, processos de licenciamento mais rápidos e reformas regulamentares.

Terceiro, à medida que a procura de energia continua a crescer, devemos enfrentar uma das suas fontes de crescimento mais rápido: os centros de dados da IA.

A inteligência artificial pode acelerar soluções climáticas.

Pode ajudar a curar doenças, transformar a educação e permitir à humanidade enfrentar desafios antes considerados fora do nosso alcance.

Devemos aproveitar esse potencial.

Mas a IA também exige grandes quantidades de terra, água e energia.

Os centros de dados que a suportam já consomem mais eletricidade do que a maioria dos países.

Até 2030, poderão consumir mais energia do que todos os países exceto cinco – e utilizar água suficiente para satisfazer as necessidades básicas de todos os 1,3 mil milhões de habitantes da África subsaariana durante um ano inteiro.

Também ocupam grandes extensões de terreno – frequentemente em locais que pouco beneficiam disso.

Apesar destas preocupações evidentes, as comunidades são muitas vezes deixadas na ignorância sobre o impacto ambiental das infraestruturas que surgem à sua volta.

Por isso, hoje proponho a Iniciativa de Transparência Ambiental da IA.

Apelo a todas as grandes empresas de IA para que meçam e divulguem publicamente o impacto ambiental completo dos seus sistemas – pegadas de carbono, água e uso do solo – e que se comprometam a abastecer todos os centros de dados com energias renováveis até 2030.

Chega de custos ocultos.

Chega de transferir o peso para quem menos pode suportá-lo.

É tempo de transparência.

Se a IA deve ajudar a construir um futuro melhor, tem de ser honesta quanto ao custo que tem hoje.

Quarto, devemos assegurar uma transição justa.

África concentra 60% dos melhores recursos solares do mundo, 30% dos minerais críticos e um quinto da humanidade. No entanto, recebe apenas 2% do investimento global em energias limpas. Ao mesmo tempo, mais de 600 milhões de africanos continuam sem acesso à eletricidade. Isto é injusto e uma oportunidade perdida para África e para o mundo.

A história ensina uma dura lição:

A maior ameaça não é a transição em si – mas a incapacidade de a gerir.

É esse o risco que enfrentamos atualmente.

A transição energética não está a avançar de forma coerente.

O investimento em combustíveis fósseis continua, mesmo com o crescimento da energia limpa.

Os países estão a seguir direções divergentes.

Os produtores perguntam: o que acontecerá às nossas receitas, aos nossos empregos, às nossas economias?

Os consumidores perguntam: a energia continuará acessível e fiável?

Os países em desenvolvimento perguntam: conseguiremos competir – ou ficaremos para trás?

E os trabalhadores, as comunidades e os jovens perguntam: o que significa esta transição para o nosso futuro?

Neste momento, estas questões não estão a ser respondidas de forma articulada.

Precisamos de um esforço comum, prático e centrado na concretização.

Um espaço que reúna produtores e consumidores, países desenvolvidos e em desenvolvimento, finanças, indústria, trabalhadores e sociedade civil.

Um espaço centrado nas questões reais que determinarão se esta transição terá sucesso ou fracassará.

Como eliminar progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis enquanto expandimos rapidamente a energia limpa?

Como gerir os riscos económicos para os países que dependem das receitas dos combustíveis fósseis?

Como apoiar os trabalhadores e as comunidades numa transição justa?

E como mobilizar investimento à velocidade e na escala necessárias?

Convocarei líderes em setembro para ajudar a impulsionar este trabalho antes da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima – COP31 – na Turquia.

Porque a transição em si já não está em causa.

Será gerida ou caótica… justa ou desigual… uma fonte de estabilidade ou de maior divisão.

Estas escolhas continuam nas nossas mãos.

A transição é inevitável.

E quero sublinhar que as energias limpas não podem ser construídas com base em práticas prejudiciais.

Uma transição justa significa que os países e as comunidades cujas terras contêm os minerais críticos para o futuro da energia limpa devem beneficiar plenamente dela.

Chega de extração sem desenvolvimento.

Quinto – e de forma fundamental – devemos fazer muito mais para proteger as pessoas e as comunidades dos impactos imediatos do caos climático.

Porque, mesmo à velocidade máxima, não conseguimos ultrapassar as alterações climáticas.

Os seus impactos já estão aqui – a acumular-se e a multiplicar-se.

Uma seca pode rapidamente transformar-se numa crise alimentar.

Uma tempestade pode transformar-se numa crise de dívida.

Uma vaga de calor pode tornar-se uma emergência de saúde pública.

A adaptação é essencial.

Salva vidas, protege casas e comunidades, ajuda as economias a absorver choques e mantém as sociedades coesas.

No entanto, durante demasiado tempo, a adaptação foi vista como caridade.

Isso está errado.

Os impactos climáticos já estão a remodelar o desenvolvimento, a estabilidade e a segurança.

Estão a pressionar os sistemas alimentares e hídricos, a perturbar cadeias de abastecimento, a pressionar as finanças públicas e a agravar a fragilidade.

Devemos responder em conformidade.

A adaptação deve ser integrada no planeamento nacional e na tomada de decisões – desde estratégias de desenvolvimento até à regulamentação.

Precisamos de sistemas de seguros e de partilha de riscos mais eficazes.

Precisamos de mecanismos de contingência que atuem antes de os choques se transformarem em catástrofes humanitárias e económicas.

Precisamos de melhor preparação antes de desastres e de implementar plenamente a nossa Iniciativa de Alertas Precoces para Todos.

E os países desenvolvidos têm de cumprir o seu compromisso de longa data de duplicar o financiamento para adaptação – com uma trajetória clara para o triplicar.

Isso leva-nos ao sexto ponto — tudo isto exige financiamento à escala, à velocidade e com a equidade que ambas as crises requerem.

Hoje, o sistema financeiro global está a falhar os países que mais precisam de apoio.

Sobrevaloriza o risco – e subvaloriza a oportunidade.

Muitos países em desenvolvimento enfrentam custos de financiamento para energia limpa e resiliência duas a três vezes superiores aos das economias mais ricas.

Países ricos em potencial de energias renováveis estão a ser excluídos da revolução da energia limpa.

Basta olhar para o vasto continente africano.

África concentra 60% dos melhores recursos solares do mundo, 30% dos minerais críticos e um quinto da humanidade.

No entanto, recebe apenas 2% do investimento global em energias limpas.

Ao mesmo tempo, mais de 600 milhões de africanos continuam sem acesso à eletricidade.

Isto é injusto e uma oportunidade perdida para África e para o mundo.

Os países desenvolvidos devem cumprir as suas promessas, incluindo o apoio ao Fundo para Responder a Perdas e Danos e ao Fundo Verde para o Clima.

Os 300 mil milhões de dólares prometidos aos países em desenvolvimento devem ser mobilizados – com medidas concretas para atingir 1,3 biliões de dólares por ano até 2035.

Num mundo de ajuda em retração, devemos também mobilizar o papel catalisador dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e do sistema mais amplo de financiamento do desenvolvimento para apoiar infraestruturas de longo prazo, como redes elétricas, transportes públicos de massa e sistemas de água.

Reformas recentes e decisões políticas aumentaram a capacidade de financiamento dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento em 600 a 800 mil milhões de dólares.

Devem utilizá-la de forma ambiciosa para financiar as infraestruturas do futuro e a adaptação climática.

Devem também adaptar os seus instrumentos à dimensão e ao horizonte temporal do desafio, incluindo financiamento a 50 anos quando necessário.

E devemos ir mais longe.

A capacidade de financiamento dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento deve ser reforçada pelos seus acionistas, incluindo através de recapitalizações ousadas e de novas reformas.

Num contexto de margem orçamental limitada, cada euro público deve ser mais eficaz e utilizado de forma mais criativa para mobilizar capital privado.

Isso implica reforçar garantias, financiamento em moeda local, financiamento misto e outros instrumentos de partilha de risco para reduzir o custo do capital e atrair investimento privado – sobretudo nos países em desenvolvimento onde os riscos são percecionados como elevados.

Implica recorrer a fontes adicionais de financiamento – desde contribuições de solidariedade sobre sectores com elevadas emissões, a trocas dívida‑clima, a receitas dos mercados de carbono e à mobilização da filantropia.

E implica assegurar que todas as instituições financeiras – públicas e privadas – alinhem a sua atividade com o Acordo de Paris e com a realidade de um mundo em aquecimento.

No final, o teste é simples:

Devemos canalizar capital para os países em desenvolvimento à velocidade, escala e acessibilidade que o momento exige, para responder à crise climática, impulsionar um crescimento mais forte e resiliente e avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Sétimo, e último, devemos proteger a ciência – e a própria verdade.

A ciência deu à humanidade a capacidade de compreender os riscos antes de a catástrofe ocorrer.

No entanto, a desinformação está a propagar-se – deliberadamente – para atrasar a ação climática, consolidar interesses instalados e corroer a confiança.

Devemos agir para proteger a independência científica;

Reforçar a confiança na evidência e nas instituições;

Proteger os defensores dos direitos humanos e os jornalistas que informam sobre o clima e o ambiente;

E assegurar que todos têm acesso a informação fiável, credível e baseada na ciência.

Podemos finalmente virar a página dos combustíveis fósseis – e escrever um futuro alimentado por energias renováveis e assente na justiça climática. Este é o nosso momento de escolha. O nosso momento de verdade. O nosso momento de oportunidade. As Nações Unidas lançaram a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Alterações Climáticas precisamente para esse fim. Os factos importam. A ciência importa. A integridade da informação importa.

Caros amigos,

Permitam-me concluir onde comecei – com Dickens.

Para a agenda climática, esta é verdadeiramente a melhor das épocas e a pior das épocas.

A pior – porque os impactos climáticos estão a intensificar-se, os pontos de rutura aproximam-se e a crise energética expôs os profundos riscos da dependência dos combustíveis fósseis.

Mas também a melhor – porque a revolução das energias renováveis já está bem encaminhada.

Uma revolução de energias limpas, de eletrificação, de custos em queda, de ambição crescente – e de enormes oportunidades.

Uma revolução que pode libertar os países da volatilidade dos mercados de combustíveis fósseis, alargar o acesso à energia, reforçar a segurança, criar empregos, melhorar a qualidade do ar, restaurar ecossistemas e aproximar um futuro mais seguro.

Temos uma enorme oportunidade – e responsabilidade – de transformar este “Conto de Duas Crises” numa única história de determinação, de equidade e de progresso partilhado.

Podemos finalmente virar a página dos combustíveis fósseis – e escrever um futuro alimentado por energias renováveis e assente na justiça climática.

Este é o nosso momento de escolha. O nosso momento de verdade. O nosso momento de oportunidade.

Aproveitemo‑lo.

Muito obrigado.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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