Na Semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU, os países mais ameaçados pelo aumento do nível do mar foram protagonistas na aprovação de uma declaração política sobre o tema. Dentre eles, Cabo Verde, que copresidiu a Cúpula de Líderes sobre esta ameaça existencial cada vez mais urgente.

Em entrevista à ONU News, o primeiro-ministro e ministro das Finanças de Cabo Verde, Francisco Carvalho, contou que, para os cabo-verdianos, a subida dos mares não é uma ameaça distante e sim um desafio presente todos os dias. 

Cenário “desolador”

“Há um exemplo muito concreto, que também afeta outros países no mundo, que é a salinização das águas que são utilizadas para a prática da agricultura. Nós temos hoje várias ribeiras, que estão próximas das zonas costeiras, onde a salinização da água para irrigação já não permite a prática da agricultura. Portanto, há vários exemplos. Há vários cenários em Cabo Verde, em várias ilhas, em vários pontos, onde há já este cenário desolador. Portanto, há áreas, pequenos vales que foram, em outros tempos, verdejantes, que foram ricos em produtos diversos, em agricultura enquanto fonte de sustento de várias famílias, que hoje estão completamente desertos, completamente secos e completamente improdutivos”.

O líder da nação insular africana adicionou que praias muito procuradas e que fazem parte das memórias de várias gerações estão desaparecendo com o avanço do oceano.

Outro desafio é garantir o abastecimento de água potável, num contexto em que as secas estão mais intensas e mananciais de água doce estão sendo contaminados pela intrusão de água salgada. 

Pnud/Projecto Vitó Association
Ilha do Fogo, Cabo Verde

Estratégias para aumentar a disponibilidade de água potável

Atualmente, cerca de 90% da água potável consumida em Cabo Verde vem da dessalinização das águas do mar, mas o processo é caro, pois demanda muita energia, o que acaba encarecendo a conta para os consumidores. O primeiro-ministro detalhou como o Governo pretende enfrentar esse problema.  

“Um grande desafio que tem de ser ultrapassado é o desafio de fazer com que a dessalinização seja um processo barato. Nós temos de ter esta capacidade de fazer com que a dessalinização seja de facto, um processo barato. E aí é que entra a energia eólica ou a energia solar para alimentar o processo de dessalinização e fazer com que o processo de dessalinização seja menos custoso. E para que possamos aumentar, sim, a quantidade de água”.

Francisco Carvalho defendeu uma diversidade de estratégias para além da dessalinização, como a abertura de novos furos para captação de água subterrânea, a construção de barragens, a instalação de cisternas familiares nas casas para reter a água das chuvas e a promoção do uso responsável. Segundo ele, essas iniciativas serão tomadas de forma “equilibrada e bem gerida”. 

Dados da ONU indicam que o estresse hídrico em Cabo Verde saltou de 7% em 2001 para 60% em 2023. Este indicador revela a proporção da extração de água doce em relação aos recursos hídricos disponíveis.

© Fida/Sylvain Cherkaoui/Panos
Através do investimento do Fida e da unidade de dessalinização a energia solar, Fausta agora cultiva culturas diversas como tomates e sandálias, assegurando seu sustento apesar do clima árido.

O caminho da solidariedade 

O chefe do Governo de Cabo Verde acredita que a declaração política alcançada na ONU é um avanço, mas ressaltou que a realidade das pessoas afetadas só vai mudar quando houver dinheiro suficiente na mesa. Carvalho enfatizou que os países mais afetados são os que menos contribuíram para a crise climática e, ao mesmo tempo, são os que têm menos recursos para enfrentarem os problemas que derivam dela. 

Ele pediu mais compromisso dos países que têm maior responsabilidade pela emissão de gases que causam o aquecimento global, o que implica abastecer os múltiplos fundos criados para apoiar países em desenvolvimento. 

O Fundo criado para compensar essas nações por perdas e danos causados pelas mudanças climáticas, por exemplo, recebeu demandas de apoio que totalizam U$ 2,8 bilhões. No entanto, apenas US$ 820 milhões foram prometidos, e desse total só US$ 456 foram realmente aplicados. O secretário-geral da ONU disse na reunião de alto nível que está muito frustrado com este valor, que chamou de “ridículo”. 

Mas a declaração política também defende o aumento de financiamento bilateral. Neste sentido, o líder cabo-verdiano destacou o exemplo positivo de uma parceria com Portugal. 

“Esta medida que Portugal decidiu abraçar com Cabo Verde é de facto uma medida que merece os maiores elogios. Portanto, é a troca de dívida que Cabo Verde tem para com Portugal, para investimento em termos ambientais. É de facto uma medida que merece os maiores elogios. Nós estamos em processo. Neste momento nós estamos a finalizar a constituição do Fundo para depois disso, imediatamente nós passarmos sim, aos projectos, que são vários, são inúmeros. Mas de facto este é um grande caminho. Porque para nós podermos ultrapassar os vários problemas que o mundo enfrenta hoje, um caminho dos mais importantes é o caminho da solidariedade”.

O primeiro-ministro disse que essa via do alívio da dívida será explorada com outros países, pois ela pode ser uma alternativa de financiamento em meio a uma “situação global muito complexa”. 

ONU/Mark Garten
Dois pescadores lançam suas redes ao largo da costa de Rincão, Cabo Verde.

Valorização da língua portuguesa

Francisco Carvalho acrescentou que o acesso a recursos é crucial, mas precisa vir acompanhado de um processo participativo, para garantir que qualquer projeto leve em conta a voz das pessoas que vivem nos locais afetados pela crise climática. 

Sobre parcerias, o líder cabo-verdiano falou da importância de valorizar a língua portuguesa, a mais falada no Hemisfério Sul. Segundo ele, o idioma “merece um lugar no coração das Nações Unidas”.

“O nosso engajamento é total e a língua portuguesa é o canal que nos une a todos nós. É o canal que une Cabo Verde com o Brasil de uma forma direta. É o canal que une Cabo Verde com Angola, com São Tomé, com Guiné. Este canal deve ser preservado. É um canal fundamental. Nós reconhecemos a importância desse canal, o canal da língua, e nós vamos ter um total engajamento, sim, nesta luta para que a língua portuguesa ganhe o lugar que de facto merece no seio das Nações Unidas, no seio do palco do mundo”.

O primeiro-ministro também abordou a conexão com as diásporas espalhadas pelo mundo. Ele disse que quadros cabo-verdianos que neste momento estão integrados em universidades e centros de investigação de ponta vão contribuir para o desenvolvimento do país, participando da elaboração de planos e políticas públicas.

Além disso, uma atenção especial será dedicada aos filhos de emigrantes, que agora não precisam mais pagar nenhuma taxa para visitar Cabo Verde. Segundo o primeiro-ministro a medida foi aprovada pelo Governo para demonstrar que esses descendentes, mesmo sem nacionalidade, são bem-vindos. 

Francisco Carvalho destacou que a decisão contribui para garantir que o sentimento por Cabo Verde “seja passado do coração dos pais para o coração dos filhos”. 

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News.

Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).

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