O setor da moda atravessa uma fase de transformações profundas, que abrangem desde a busca por uma cadeia de suprimentos mais sustentável até o uso inteligência artificial, IA, na produção.
Para falar sobre esse momento de mudança, a ONU News conversou com uma das mais jovens expoentes do design têxtil em Portugal, Constança Entrudo. Ela afirmou que o país reúne condições ideias para se tornar uma referência global no universo da moda nos próximos anos.
Sinergia entre sustentabilidade e tecnologia
“O Made in Portugal estar na moda também tem ajudado muito e eu acho que esta ligação com a indústria, que é uma indústria incrível e com uma capacidade de inovação enorme e que está a investir cada vez mais em sustentabilidade e em tecnologia. Eu acho que esta aliança entre designers que estão constantemente a surgir, muitas pessoas que se mudaram também para Portugal recentemente e que estão a trazer imenso design. E eu acho que essa sinergia que se está a criar está pronta a fazer com que Portugal possa vir a ser uma capital da moda também de alguma maneira”.
A designer portuguesa participou na quinta-feira de um painel na sede da ONU em Nova Iorque chamado “Moldando o Futuro: Design de IA para as Pessoas e o Planeta”, organizado pelo Escritório de Parcerias da ONU.
Em entrevista realizada antes do evento, Constança disse que a inteligência artificial pode ajudar a reduzir o impacto da indústria da moda no meio ambiente, evitando o desperdício de tecidos.
Vantagens e riscos da IA
“Quando uma peça vai para a produção, tentar otimizar ao máximo aquilo que temos de tecido para ver onde é que podemos encaixar todas as peças da modelagem, é uma coisa mais técnica. E hoje em dia há ferramentas que são fantásticas de inteligência artificial e softwares que nos estão a ajudar a conseguir fazer isso muito mais rápido”.
A designer, no entanto, revelou preocupação com o uso da IA para difundir aquilo que chamou de “Craft Washing”, ou seja, a classificação inadequada de produtos como sendo artesanais e feitos à mão.
“A inteligência artificial também está a ter um papel manipulador nestas narrativas a usar termos como “Craft” (Artesanal) em tudo. Hoje em dia, tudo é Craft, nós podemos ver uma campanha da Mango ou de uma marca de fast fashion que é “Crafting Stories”, ou conseguimos ver uma marca de fast fashion produzir um chaveiro na China e a dizer que é hand finished (feito à mão), ou seja, quando isto na verdade sempre foi hand finish, porque este processo existe na fábrica, mas nós não sabemos realmente o que é que está a acontecer. Esta questão da transparência também me preocupa muito”.
Atividades essencialmente humanas
A artista confessou que vive uma “dicotomia” em relação à IA, pois é entusiasta do uso para otimizar processos de produção, corte de tecidos, criação de protótipos realistas e gerenciamento da empresa, mas ao mesmo tempo, o convívio com a tecnologia a fez retomar atividades manuais, como o desenho à mão.
Para ela, esse movimento de tentar, errar e recomeçar é essencial para impulsionar a criatividade humana. A artista também acredita que atividades de pesquisa não podem ser inteiramente realizadas por máquinas, pois os algoritmos entregam resultados “bastante filtrados”.
Especialista em tecidos, Constança é a favor de realizar pesquisas visitando arquivos, indo a museus, ou observando os materiais em seus respectivos contextos históricos.
Ela é conhecida por usar materiais inovadores e por ser criadora da técnica como “unwoven”, ou destelagem, que consiste em fazer uma desconstrução da trama e o uso de fios reciclados, criando tecidos e texturas únicas. Trata-se de uma tecelagem fora do tear, fio a fio, diretamente no molde e na própria peça.
Setor da moda atravessa uma fase de transformações profundas, que abrangem desde a busca por uma cadeia de suprimentos mais sustentável até o uso inteligência artificial, IA, na produção
Recado para os jovens
A designer contou que sua trajetória sempre foi marcada por uma busca por autenticidade, desde os estudos na renomada Central Saint Martins em Londres, até a criação de sua própria marca em Portugal, sempre com uma abordagem muito ligada ao têxtil e à sustentabilidade.
Ela disse que o mercado da moda, embora “saturado” sempre tem espaço para coisas novas e deixou um recado para jovens como ela, que também querem atuar no setor.
“Não vai ser fácil todos os dias, não vai ser estimulante. Ou seja, a criatividade não é uma coisa que está constantemente conosco. Isso às vezes é difícil de acreditar. E esta gestão entre criatividade, frustração e bater na mesma tecla e continuar, e tentar perceber melhor como é que as coisas funcionam. Ou seja, mais estudo, mais desenvolvimento e mais acreditar no processo. Pronto, eu acho que isso é o melhor conselho que me deram e que eu acho que posso dar”.
Constança afirmou que em meio a problemas como sobreprodução, desperdício e impacto ambiental, os profissionais da moda devem sempre se perguntar como criar algo autêntico, que possa acrescentar valor ao mundo e que valha a pena produzir.
Ela enfatizou que Portugal tem um enorme potencial, devido à vasta tradição no setor têxtil e uma indústria pujante, que já produz para quase todas as grandes marcas. Para explorar esse potencial, ela defendeu maior proximidade entre designers e profissionais das fábricas e uma revitalização do artesanato português.
*Felipe de Carvalho é redator da ONU News.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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