Cuidar da saúde mental deixou de ser uma questão individual em um mundo atravessado por crises sociais, pressão econômica e polarização política. Conflitos, eleições e uma avalanche de informações digitais são alguns dos fatores que provocam ansiedade e afetam o emocional das pessoas.
Para o chefe da Unidade de Saúde Mental e Uso de Substâncias da Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, Renato Oliveira e Sousa, a responsabilidade de cuidar é coletiva.
Diferentes precipitadores do estresse
“Algumas pessoas, sem dúvida, são mais vulneráveis que outras, mas existem algumas coisas que cada um pode fazer para lidar com o estresse. Seja o estresse de um processo eleitoral e aqui a região das Américas, é também muito propícia a desastres naturais. Algumas áreas também são muito afetadas por violência urbana. Então, todos esses são diferentes precipitadores do estresse.”
Infância e adolescência estão cada vez mais expostas aos riscos e pressões do ambiente digital
Renato Oliveira e Sousa, que também é psiquiatra, conversou com a ONU News, de Washington, para marcar este Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro. Este ano, a série de atividades traz como apelo: “Experiências vividas, ouvidas, vozes reais, mudanças reais.”
A data é dedicada a dar visibilidade às questões de saúde mental no mundo e a promover esforços contínuos de apoio.
A mensagem deste ano coloca no centro do debate quem vive a dor psicológica, o trauma, o luto, a ansiedade e o estigma, não como meras estatísticas, mas destacando a forma como essas pessoas precisam ser ouvidas.
Instabilidade econômica
As crises não começam nem terminam nas manchetes. Uma tensão social pode entrar na casa de qualquer um, defende Renato Oliveira e Sousa. Uma instabilidade econômica pode transformar a preocupação com o futuro em noites sem sono. Da mesma forma, um período eleitoral pode acentuar a polarização e a ansiedade.
Indo muito além da violência e dos desastres naturais, guerras e deslocamentos forçados deixam marcas profundas mesmo depois que as pessoas encontram um lugar seguro.
O chefe da Unidade de Saúde Mental e Uso de Substâncias da Opas ressalta, no entanto, que o estresse pode ser gerido por meio da respiração e de técnicas de mentalização.
Estresse adicional
“Mencionei exercícios de respiração. Algumas pessoas também conseguem se acalmar, se tranquilizar com algumas técnicas de mentalização. E manter a rotina, manter as atividades, seja atividade física, seja atividade intelectual, trabalho, para que assim a mente não seja inundada de informação que muitas vezes traz esse estresse adicional. Essas são algumas dicas que eu acho que pode ajudar todo mundo nesses momentos mais propícios ao estresse.”
Conflitos, eleições e uma avalanche de informações digitais são alguns dos fatores que provocam ansiedade
E, numa sociedade conectada de forma permanente, crianças, adolescentes e adultos podem ser expostos, durante horas, a imagens, notícias e discursos que mantêm a mente em estado de alerta.
É neste cenário que a saúde mental precisa ser tratada como parte essencial da resposta às crises. Não existe sociedade saudável quando milhões de pessoas são obrigadas a enfrentar silenciosamente o medo, o luto ou a exaustão.
Cuidado com os filhos na internet
“A gente sabe que alguns jovens se distanciam da realidade, se distanciam dos contatos sociais, dos processos de educação. Então, nós como pais temos que estar muito atentos. O mundo digital, sem dúvida, traz benefícios. Ele traz acesso à informação. Ele também traz conexão a amigos, a familiares, principalmente aqueles que moram distantes. Mas, assim, tem que ter uma medida, tem que ter uma supervisão dos pais, acompanhar o que os filhos estão fazendo, em que sites estão entrando e colocar também horários específicos, que não sejam horas excessivas, que não seja à noite, que não seja perto de dormir. Tudo isso para que a gente continue apoiando nossos jovens a desenvolver habilidades sociais, a desenvolver habilidades educativas. Esse é um ponto muito importante, um ponto muito atual.”
Para Renato Oliveira e Sousa, as ações para recuperar algum equilíbrio não são soluções para todos os problemas, mas podem ser pequenas âncoras quando tudo à volta parece instável.
Especialista diz que quando uma sociedade aprende a ouvir a dor antes que ela se transforme em silêncio, começa verdadeiramente a mudar
A saúde mental contemporânea é profundamente afetada pela pressão econômica, pela ansiedade geracional e pelo desgaste causado por conflitos políticos, desinformação e exposição constante a crises nas redes sociais.
Diante dessa realidade, o cuidado psicológico deve ultrapassar as paredes dos consultórios e traduzir-se em ações concretas de dignidade, trabalho e proteção social.
Dor transformada em silêncio
Isso exige que a sociedade aprenda a estabelecer limites informativos e a comunidade se comprometa a escutar ativamente, combater o estigma e apoiar as famílias para que ninguém enfrente os seus momentos de crise em isolamento.
Ainda para o especialista, quando uma sociedade aprende a ouvir a dor antes que ela se transforme em silêncio, começa verdadeiramente a mudar.
Paciente em um hospital de saúde mental em Monróvia, Libéria.
Ele disse ainda que a infância e a adolescência estão cada vez mais expostas aos riscos e pressões do ambiente digital, exigindo que pais e cuidadores priorizem os limites e as conexões humanas em relação ao uso de telas.
Apoio psiquiátrico e psicológico
Paralelamente, em meio ao aumento global dos traumas devido a crises e do estigma social sobre doenças mentais, a rede de apoio psiquiátrico e psicológico precisa ser descentralizada por meio do treinamento da própria comunidade para oferecer primeiros auxílios psicológicos.
Para a sustentabilidade desse modelo, torna-se indispensável cuidar também da saúde mental dos próprios cuidadores e acolher, em várias gerações, o relato público e humanizado daqueles que vivem com transtornos mentais.
*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.
Source of original article: United Nations / Nações Unidas (news.un.org). Photo credit: UN. The content of this article does not necessarily reflect the views or opinion of Global Diaspora News (www.globaldiasporanews.net).
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