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Source of original article: Rafael Lima / Global Voices (pt.globalvoices.org).

Então finalmente, Harvey Weinstein foi condenado a 23 anos de prisão. Enquanto essa sentença, anunciada em 11 de março, foi bem-recebida por muitos, o julgamento como um todo foi uma demonstração de como é penosamente difícil para mulheres, alcançar justiça por abuso sexual.

Como uma sobrevivente de estupro, e alguém que apoiou amigas, sobreviventes de julgamentos difíceis e do TEPT, eu não posso deixar de pensar em Weinstein como apenas um estuprador condenado entre milhares que estão livres. Eu também assinei esse artigo com um pseudônimo para proteger minha a identidade e porque ainda não me recuperei totalmente.

Weinstein foi condenado pelo estupro de duas mulheres. Seis mulheres testemunharam sobre suas ações, relatando horríveis casos de abuso e violação. Ao todo, 15 mulheres o acusaram de estupro, e outras dezenas o acusaram de assédio sexual em um período de mais de duas décadas. O fato de que ele vai, finalmente, passar algum tempo na prisão, não recupera as carreiras destruídas e nem alivia as feridas ou cura os danos corporais e psicológicos que ele causou às vítimas.

Segundo estatísticas da Rede Nacional Americana de Estupro, Abuso e Incesto (RAINN), menos de 25% dos casos de assédio sexual são denunciados à polícia (230 em cada 1.000, para ser precisa). As razões para isso são muitas. Entre essas estão, a incapacidade de muitas sobreviventes de nomear o que aconteceu com elas, o medo de represálias do estuprador ou um desejo de proteger o abusador, como ocorreu no meu caso.

Como a maioria das sobreviventes, eu conhecia o homem que me estuprou. Eu me envolvi com ele. Ele gostava de poesia e literatura. Cresceu em uma família abusiva, mas parecia ter superado seu trauma. Ele cursou uma universidade, gostava de tomar drinques com os amigos, e de forçar sexo sem proteção comigo, não importa quantas vezes eu dissesse ‘não’. E apesar de eu me considerar bem- informada sobre violência de gênero, a ideia de sofrer abusos do meu companheiro era tão estranha que eu levei nove meses para perceber que o que ele fez é considerado estupro.

Mas eu ainda não queria prestar queixa, porque seria a minha palavra contra a dele. Além disso, eu pensava que ele “já sofria demais” por conta da infância difícil.

Os obstáculos para sobreviventes de estupro não estão apenas diante da decisão de denunciar ou não. Em cada 1.000 casos denunciados, apenas 46 vão à julgamento. Por quê? Parte da resposta tem a ver com o modo como policiais destreinados lidam com casos de estupro. Entre amigos e ativistas eu já ouvi muitos casos de incompetência ou extravio de evidências pela polícia.

Além disso, pesa a atitude de policiais incompetentes no trato com as vítimas, o que as inibe de falar. Sobreviventes reclamam de como policiais perguntaram sobre “como estavam vestidas”, ou as culparam por “estarem na rua tarde da noite”. O medo de ser tratada dessa forma já me impediria de fazer um boletim de ocorrência.

Durante o processo legal, sobreviventes devem recontar seu martírio inúmeras vezes, uma experiência traumática e muito ineficiente. A amnésia traumática rapidamente se manifesta e muitas pessoas não são capazes de lembrar de detalhes tão claramente, o que leva a inconsistências que acabam pesando no processo. O choque psicológico pode levar as vítimas a dissociar as emoções dos fatos, o que pode dar uma aparência de serem desconexos. Isso contradiz a imagem da “desesperada-vítima-de-um-homem-desconhecido-em-uma-viela-escura”, e muitos policiais não registram denúncias por não considerarem a vítima suficientemente verossímil. Isso é particularmente exemplificado no caso do processo de Marie Adler, a história de uma investigação mal executada que foi adaptada em uma série da Netflix.

Segundo estatísticas da RAINN, nove casos em 1.000 serão investigados. Entre esses, apenas cinco irão a julgamento, e desses, 4,6 estupradores serão condenados à prisão.

Mesmo durante os julgamentos, as coisas são difíceis: cada detalhe da vida da vítima é analisado. Sua “moralidade”, vida sexual, saúde mental e seu corpo.

Na França, o caso da menina Sarah, de 11 anos, atacada por um homem de 28 anos, não foi considerado estupro porque ela parecia “mais velha do que sua idade” e aparentava calma. Por esse motivo, a principal questão abordada no julgamento do agressor foi se ela havia consentido ou não.

Recentemente, uma amiga sobrevivente de estupro escutou, em um tribunal da Europa ocidental, a acusação feita pelo advogado de defesa do homem que a estuprou, que ela “não queria contar ao namorado que tinha feito sexo com outro homem, e por isso o acusou de estupro”. As observações sarcásticas de advogados de defesa ferem as vítimas profundamente. Chanel Miller, vítima em um caso de 2016, envolvendo estudantes da Universidade Standford da Califórnia, foi retratada como bêbada pelo advogado de defesa de Brock Turner, que a insultou até ao ponto de ela ter que deixar a sala do júri.

Enquanto menos do que cinco em cada 1.000 casos de estupro termina com uma condenação, uma em cada seis mulheres nos EUA foi estuprada ao menos uma vez durante sua vida. Na França, esse número é de uma em dez, e na Bélgica, uma em cinco.

Pensar sobre essas estatísticas enquanto se olha uma lista de amigas no Facebook nos leva a um cálculo horrível. Mas o exercício estatístico ao qual as pessoas são ainda mais relutantes é pensar quantos dos seus amigos e conhecidos já estupraram. Se a cada seis mulheres, ao menos uma já foi estuprada, então possivelmente há ao menos um estuprador entre nossos entes queridos. Quantos foram denunciados, processados e sentenciados?

A ideia de que estupradores são visivelmente pervertidos e imorais, é no mínimo incorreta e, de fato, desastrosa. É uma ideia que nos impossibilita imaginar que alguns dos homens talentosos, gentis e generosos que conhecemos podem ter atacado alguém, alguma vez.

Enquanto isso, o caminho para a recuperação das vítimas é penoso. Inclui de tudo desde TEPT, depressão até distúrbios alimentares. O processo de cura é cheio de recaídas, mas também de resistência. Em minha experiência, e de muitas amigas, não se esquece o que aconteceu, aprende-se a seguir em frente e viver com nossas novas personalidades de sobreviventes.

Para mais informações e conteúdo sobre como lidar com a violência sexual, visite o site da RAINN.

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